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O futebol lava mais branco?

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h39

Foi um imperador romano quem primeiro disse que o dinheiro não tem cheiro.
Censurado por seu filho Tito por criar um imposto sobre os mictórios de
Roma, Vespasiano o lembrou que o odor dos banheiros públicos não impregnaria
o tributo recolhido aos cofres do Império. E pronunciou a frase célebre, tão
atual, e boa para conversas de botequim entre boleiros da era globalizada:
“Pecunia non olet”. O dinheiro não cheira, ou não fede, para ser mais
preciso na tradução. Dinheiro é bom, venha de onde vier e como vier.
O comentário, o leitor já adivinhou, se refere ao acordo entre Corinthians e
o MSI, de Kia Joorabchian. Por comodidade, vamos chamá-lo de Kia,
simplesmente, embora sem qualquer pretensão de intimidade com esse
personagem que, parece, veio para ficar. Kia já é nosso. Antes, todos eram
unânimes em dizer que dele jamais comprariam um carro usado. No entanto, ele
já começou a ganhar pontos, na mídia como na torcida, com a bombástica
contratação de Tevez, atacante do Boca Juniors. Promete mais: Vanderlei
Luxemburgo, Mascherano, Alex (ex-Cruzeiro, Palmeiras) e vai por aí.
A torcida organizada, a princípio resistente, já dá sinais de rendição.
“Apesar de argentino, Tevez é filho de Deus”, concede Ronaldo Pinto,
presidente da Gaviões da Fiel. Parreira, no estilo insosso de sempre (a
seleção jogando é a cara dele), declarou que a contratação era ótima e o
intercâmbio de jogadores, muito saudável para o futebol brasileiro.
Intercâmbio como, cara-pálida? Intercâmbio implica dupla mão e, que eu
saiba, a rota de saída de craques até agora aponta em uma única direção.
Quanto ao próprio Tevez, ele evitou declarar-se corintiano desde
pequenininho lá em Fuerte Apache, bairro barra-pesada de Buenos Aires. Com a
vida amorosa tumultuada, limitou-se a dizer que vinha para o Brasil em busca
de privacidade, o que talvez soe mais engraçado ainda.
Mas, enfim, a embrulhada entre Tevez, Kia e o MSI seria em tese problema
exclusivo do Corinthians e dos corintianos. Já o vale-tudo financeiro é
problema de todos nós – e do futebol brasileiro em seu conjunto. Kia, ao que
se sabe, procurou antes outros clubes e foi rechaçado. Agora encontrou
guarida. É possível que, se o Corinthians conseguir formar um esquadrão com
esse dinheiro de origem, digamos assim, “indeterminada”, outros clubes se
sintam tentados a imitá-lo, até por uma questão de competitividade. Daí para
o futebol brasileiro se transformar em vistosa lavanderia será um passo.
Aliás, o Brasil nem estará inovando nesse quesito, pois o futebol europeu,
tido como modelo supremo pelos deslumbrados de sempre, volta e meia se vê
sob suspeita de transações pouco claras.
Voltando a Tevez: quem não desejaria tê-lo em seu time? E quem não gostaria
de vê-lo atuando no futebol brasileiro, com sua técnica, sua garra e
potencial de polêmica? Mas, a esse preço? E não me refiro somente ao valor
do acordo (US$ 19,5 milhões) entre MSI e Boca. É que talvez haja outros
preços e outros valores em jogo. E estes, se não formos nós a defendê-los,
ninguém o fará pela gente. Muito menos o nosso querido Kia.

2/12/2004

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