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O futebol me persegue

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h17

12/12/2006

Como estou em Cuba, deveria estar mais por fora de futebol do que umbigo de
vedete, como se dizia antigamente. Aqui ninguém se preocupa com o nosso
esporte favorito. Gostam de beisebol. Aprendi com um amigo novo, Juan
Ramírez Martínez, crítico de cinema, que o mais popular time de beisebol da
ilha se chama Los Industriales, uma espécie de Flamengo ou de Corinthians de
Havana, em termos de torcida, claro. Ganha tudo, porque todos querem jogar
nele. Um dia, como costuma acontecer em festivais de cinema, houve uma
recepção. Terraço do Hotel Nacional, vista para o mar do Caribe, copo de
mojito na mão, perguntei ao Juan, e a um grupo de cubanos que lá estavam,
como se explicava que, sendo eles, cubanos, tão parecidos com os
brasileiros, acontecia de não gostarem de futebol. Um deles arriscou a
explicação: proximidade e influência dos EUA. Me perguntaram como o futebol
chegou ao Brasil e lhes contei dos pioneiros de origem inglesa, Charles
Miller em São Paulo, e Cox no Rio. Meus amigos concluíram que a preferência
pelo beisebol ou pelo futebol se devia a essas influências diferentes. Deve
ser isso mesmo.
Mas, enfim, nesta ilha e longe da internet, eu deveria estar na mais
profunda ignorância futebolística, e de fato estou, pelo menos em termos.
Imagino que aí no Brasil o que há é o tédio da entressafra anual: tais e
tais jogadores sendo negociados, este técnico permanece, aquele outro cai
fora e por aí seguimos. No entanto, hoje em dia existem as TVs por
assinatura, e, mesmo aqui, pude ver alguns jogos da Copa dos Campeões. Não
que essa geléia geral européia me interesse muito, mas vi que Ronaldo mais
uma vez renasceu das cinzas e conseguiu dois gols que deram ao Real Madrid
empate já improvável. E tive a satisfação de assistir ao gol do Ronaldinho
que deve ter feito correr muita tinta aí no Brasil – a tal cobrança de falta
em que a barreira saltou e ele chutou por baixo, enganando todo mundo. No
craque, brilha a arte da ilusão. Esses momentos de magia justificam as horas
e horas de futebol tedioso às quais às vezes somos submetidos.
Compreensivelmente, o desinteresse pelo futebol que existe aqui faz com ele
quase não ocupe espaço nos jornais. Mas até na imprensa cubana houve
destaque para o gol de Ronaldinho, lance que ganhou foto no sisudo Juventud
Rebelde, órgão fundado por Fidel Castro em 1961, conforme se lê no
cabeçalho. Lá está na página de Esportes a imagem da barreira do Werder
saltando tolamente, enquanto a bola passa por baixo.
Mas o futebol encontrou outros meios de me perseguir, mesmo estando em Cuba:
nos filmes. Em dois deles, em especial, e através de um mesmo personagem,
Don Diego Armando Maradona. Os dois, claro, são argentinos. Ambos brincam
com palavras e com os nomes do craque. Um se chama Amando Maradona; o outro,
O Caminho de São Diego. O primeiro é um documentário mais convencional, com
a trajetória e jogadas de “El Diéz”, entrevistas com ele e amigos. No
segundo, Don Diego quase nem aparece. O filme, de Carlos Sorín, se situa na
época em que Maradona ficou muito mal de saúde e se pensava que pudesse
morrer de uma hora para outra. Uma legião de fãs se postou em frente ao
hospital, com faixas de solidariedade, e muita gente veio do interior para
se juntar aos devotos. O Caminho de São Diego mostra um desses peregrinos,
para quem a idolatria a um jogador passa a ser a coisa mais importante da
vida. E então se sente a força do futebol, esporte que me persegue até numa
ilha caribenha que prefere aquele jogo estranho com bastão, luvas e uma bola
pequena.

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