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O futebol virou máquina de fazer dinheiro

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h51

4/9/2007

Como estou fora do País, recebo com surpresa e-mail de familiares me
avisando dos resultados da rodada. Como? O “retranqueiro’’ São Paulo enfiou
6 a 0 no Paraná? O Palmeiras, que estava se aprumando, tomou de 5 a 0 do
Cruzeiro? O Santos, com um time que eu havia chamado de “sólido’’ pouco
tempo atrás, apanhou de 2 a 0 de um despedaçado Corinthians em crise eterna?
Vocês não querem que eu volte?, como perguntava um personagem antigo do Jô
Soares.
Como não vi os jogos, suponho que cada um deles deva ter a sua lógica
interna, como costumamos escrever depois que o resultado foi definido.
Agora, que não eram placares esperados, lá isso não se pode negar. Quer
dizer que o São Paulo, que já tinha uma defesa intransponível, deu agora
para golear? Desse jeito, não perde o título de jeito nenhum. O Cruzeiro
surge como a segunda força, pois de fato substituiu o Botafogo como o “time
que joga bonito’’ e vence, à brasileira, digamos. Mas precisava enfiar 5 no
Verdão? E o Corinthians, achou de se reabilitar logo em cima do Santos, que
estava na boca do G-4 e já havia se livrado da ameaça de desmanche, com o
fechamento da janela européia de transferências? Estranho esporte esse, que
sempre nos reserva surpresas, mesmo que já estejamos acostumados a elas, não
por força da sabedoria mas da experiência acumulada pelos anos.
Por aqui o calcio apenas esboça seus primeiros movimentos, ainda, como todo
o futebol europeu, meio ressabiado com a morte do lateral Puerta, do
Sevilha. Imagino que deve ter repercutido por aí também, porque foi uma
tragédia bem parecida com aquela do Serginho, do São Caetano. O caso ganhou
grandes manchetes e provocou comoção. E também troca de acusações, como de
praxe. Michel Platini, presidente da Uefa, e Joseph Blatter, da Fifa,
responsabilizaram a cobiça dos clubes, o excesso de jogos. Mas os clubes – e
jornalistas – lembraram aos dirigentes que as entidades também têm a sua
parcela de culpa no funcionamento frenético dessa máquina de fazer dinheiro
em que se converteu o futebol. Lembraram, por exemplo, que foi a Fifa que
transformou a Copa Intercontinental em torneio, quando antes era decidida em
jogo único.
Enfim, essa máquina faz ídolos e os mata. Ou devora, como está acontecendo
com Adriano, o ex-Imperador da Internazionale, em permanente inferno astral.
Adriano não teve seu nome relacionado entre os 25 que disputarão a Champions
League pela Inter e deu entrevistas dizendo-se magoado.
Mas a imprensa não deixou barato. Lembrou que a vida do Imperador se
transformou em farra constante, regada a álcool, amizades difíceis e garotas
fáceis. Dão até cifras. Em sua devoção a Baco, Adriano gastaria cerca de €
40 mil por semana na noite de Milão – € 160 mil ao mês, uma extravagância
até para quem tem contrato de € 5,5 milhões ao ano até 2010. Fala-se também
de festas até a madrugada na villa mantida pelo jogador perto de Milão. Não
é a imprensa de escândalo que traz tudo isso à tona. As notícias, com
chamada e início na primeira página, estão em jornais sérios como Corriere
della Sera, La Stampa e La Repubblica.
Num deles, a transcrição de um desabafo de Adriano à sua mãe: “Eu era mais
feliz quando não tinha nada de meu’’. Confesso que me deu um nó na garganta.
Torço para que ele dê a volta por cima e não deixe que a fama, essa deusa
caprichosa, o devore. Forza, Imperatore.

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