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O goleiro e o cineasta

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h46

Não sei se é exemplo a ser seguido. Mas me deixou comovido a atitude de Marcos ao sair do gol, em desespero, para tentar ajudar seu time no ataque. Vocês vão me dizer: coisas assim acontecem desde que o mundo é mundo. Certo. Na véspera de Palmeiras x Grêmio, Fábio Costa abandonara a meta para tentar uma cabeçada na área adversária em busca de um empate no jogo contra o Vasco, o que acabou não acontecendo. Talvez todo goleiro tenha, no fundo, uma vocação inconfessada de artilheiro, sonho que poucos realizam, sendo Rogério Ceni uma das exceções.

Mas acredito que Marcos saiu do gol não para sentir o prazer egoísta de balançar a rede adversária, mas por uma série de motivos, entre os quais não se exclui um possível sentimento de culpa pelo gol que ele próprio havia tomado. Não se pode dizer que tenha sido frango. Afinal, bolas levantadas na área, cruzando de lado a lado, com vários jogadores atrapalhando a visão, são um inferno para os goleiros. Mas de um jogador como ele se espera que não tome gols desse jeito.

Culpado ou não, Marcos lançou-se ao ataque. Movido, talvez, pelo impulso tão humano de se redimir de uma falta, real ou imaginária.

“Errei, vou consertar meu erro”, pode ter pensado, lá no fundo obscuro da consciência. Foi em busca da segunda chance, esse tema recorrente dos faroestes americanos e também da melhor literatura, como Lord Jim, de Joseph Conrad.

Mas, além disso, Marcos pode ter pressentido certa apatia no time, o desespero de não conseguir realizar as jogadas de ataque em virtude da marcação muito eficiente do Grêmio. Muitas vezes um time bem marcado parece apático, quando na verdade está sendo paralisado pelo adversário. É uma das artes do jogo de bola – cortar a fluência de um oponente tecnicamente superior e levá-lo à instabilidade psicológica. O Grêmio ganhou o meio-de-campo e o Palmeiras não tinha articulação para chegar com qualidade ao ataque. Por isso – também – o goleiro saiu da meta e foi tentar resolver as coisas lá na frente. Para insuflar alguma alma num time que já estava sendo derrotado também no plano espiritual.

O fato de não ter dado certo em nada deve influenciar a nossa análise do fato. Nem sempre os resultados dizem tudo, e o significado da atitude também deve ser levado em conta. Enfim, a beleza do gesto tem seu valor, mesmo que não dê em nada. Líder dentro de campo, Marcos tem uma percepção do jogo que talvez escape à análise racional do treinador que o criticou. Eu diria que Luxemburgo tinha razão ao criticar, mas era Marcos no fundo quem estava certo. Naquele momento, em sua atitude camicase, ele encarnou o verdadeiro espírito do futebol, essa velha e apaixonante arte.

BOLEIRO ALAN PARKER

Estou em Manaus cobrindo o Amazonas Film Festival e tive o prazer de conhecer pessoalmente o diretor britânico Alan Parker, autor de sucessos como Mississippi em Chamas e Evita. E por que falar nele nesta coluna de futebol? Porque Parker é torcedor fanático e não perde jogo do Arsenal. Quando o convidaram a Manaus, disse que viria, com a condição de poder assistir a Arsenal x Manchester. Contei essa história aos meus amigos da ESPN ao participar de um programa. Qual não foi a surpresa de Parker ao ouvir o locutor da emissora mencionar seu nome quando acompanhava a vitória do Arsenal sobre o Manchester? Em conversa que tivemos sobre cinema e futebol ele se disse muito emocionado ao ser citado numa transmissão de jogo do Arsenal falada em português. O futebol une as pessoas. É a única verdadeira linguagem universal.

(Coluna Boleiros, 11/11/08)

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