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O inferno são os outros

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h40

13/5/2008

Uma amiga perguntou por que o Flamengo jogava contra o Santos com o Maracanã
vazio. O STJD determinou que a partida fosse com portões fechados, respondi.
E por quê?, insistiu. Expliquei: um torcedor do Flamengo atirou uma lata no
campo e o time levou a punição. Mais uma pergunta da amiga, para encerrar o
assunto: E o que o Santos tem a ver com isso? Fiquei sem saber o que dizer,
porque, de fato, aprendi na escola que apenas os culpados devem ser punidos
por seus atos anti-sociais. Assim, como castigar toda uma coletividade pela
ação de um único vândalo? E – pior – como punir a torcida do outro time, que
nada tem a ver com o malfeito? Como punir a todos nós com um jogo frio,
indiferente, chato, sem alma, um tédio só?
Bom, alguém pode dizer que mesmo com a torcida do Mengo na arquibancada a
coisa talvez não fosse tão diferente assim, tamanha a mediocridade vista
naquele templo do futebol. Afinal, como jogaria o Flamengo ainda em plena
ressaca da desclassificação inesperada diante do América do México? Mas,
como saber? Afinal, trata-se da maior torcida do Brasil e, por certo, parte
dela estaria lá para incentivar o time, fazê-lo esquecer do vexame, ou,
simplesmente, para cobrar mais brio e raça. Seja como for, a torcida daria
colorido àquele jogo opaco. E só a torcida mesmo poderia fazer isso, porque
futebol dentro de campo, que é bom, não se viu. Nem por parte do Flamengo,
que fez a sua parte com facilidade, e muito menos do Santos, com um time
reserva, desentrosado e desmotivado.
Nos outros jogos, a coisa não foi muito melhor, pelo menos nos que
acompanhei. Provavelmente, a melhor partida foi Portuguesa 5 x Figueirense
5. Placar de pelada, de baba, como se diz na Bahia. Mas, tirando a Lusa, a
rodada foi pífia, em especial para os paulistas. Também o São Paulo se
poupou para a Libertadores e perdeu do Grêmio, no Morumbi. O Palmeiras
parecia bastante confiante em si, a ponto de ficar surpreso com a
resistência do Coritiba, que jogou melhor que o Palestra e ganhou com
méritos.
O detalhe interessante desse jogo foi a reclamação palmeirense contra as
firulas de Michael. Como? O time de Valdivia protestando porque o adversário
usa malícia e jogadas de efeito para conseguir uma vantagem? Não pode. Só
quando Valdivia é o protagonista. Nesse caso, trata-se de futebol-arte,
intolerável para os brucutus. Como dizia Jean-Paul Sartre, aquele famoso
ponta-esquerda da seleção francesa, “o inferno são os outros”. E, para não
dizer que não houve nada de novo no front, Luxemburgo queixou-se da
arbitragem.
Verdade que essa impressão inicial de pasmaceira tem uma explicação, ou mais
de uma. Vários clubes continuam com o foco em outras competições, como a
Libertadores e a Copa do Brasil. O Campeonato Brasileiro, por enquanto, fica
em segundo plano. Afinal, é competição de tiro longo. Não adianta relembrar
que os pontos perdidos agora jamais serão recuperados porque ninguém aprende
mesmo. E, de fato, é mais urgente privilegiar o curto prazo do que pensar no
futuro. Nenhum clube tem elenco para enfrentar duas competições ao mesmo
tempo. Tem de ir administrando esse cobertor curto –se puxar de um lado,
descobre o outro.
Além disso, o futebol, como tudo em nosso mundo, virou uma atividade
frenética. Os torneios se sucedem ou se encavalam, como está acontecendo
agora, e nem clubes nem as torcidas têm forças suficientes para se dedicar a
todas as exigências. Como os clubes têm de ir se adaptando ao Campeonato
Brasileiro, também nós precisamos nos acostumar a ele. É preciso tempo. Mas
tempo é o que menos se tem hoje em dia.

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