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O jogo da Espanha é chato *

Luiz Zanin Oricchio

18 de junho de 2013 | 09h49

Chato em especial para os adversários. Experimente, por exemplo, perguntar aos uruguaios se tiveram algum prazer ao jogar contra os espanhóis no domingo, quando literalmente não viram a cor da bola. Pois é, a Espanha jogou do jeito a que já nos acostumamos nos últimos anos: brutal posse de bola, fruto de ocupação de espaços, trocas de posição constantes e passes precisos. Eles não erram. Distribuem-se em campo de modo que cada um tenha pelo menos duas opções de passe. Suprassumo do futebol de prosa, baseado no avanço por triangulações, de que falava Pasolini. Bola pra lá, bola pra cá e, de repente, um lançamento, um toque refinado, e alguém aparece na frente do goleiro para finalizar. Lampejo de poesia em meio à prosa repetitiva.

E assim foi contra o pobre Uruguai. Primeiro tempo humilhante, em que até os gandulas viram a bola mais de perto do que os nossos atônitos vizinhos. No segundo, os espanhóis relaxaram mas, mesmo assim, o Uruguai pouco fez. O gol de honra foi marcado no final, em lance fortuito e de pouca consequência para o resultado.

O interessante é que a Espanha já coloca um problema para a Copa das Confederações, ensaio geral para a Copa do Mundo: será possível pará-los? A apresentação contra o Uruguai foi um cartão de visitas até certo ponto assustador. Muita gente lembrou do baile que o Uruguai levou da Holanda na Copa de 1974. Poderiam lembrar também da contradança do próprio Brasil ao perder de 2 a 0 para a Laranja Mecânica, na mesma Copa. As comparações valem. Todo mundo sabe que o jogo espanhol mudou através do implante holandês no Barcelona. Em 1974 todos foram pegos de surpresa. Ninguém conhecia direito o gênio Rhinus Michels e a arte de Crujyff, Neeskens & Cia. O mundo veio abaixo.

Agora não. Tudo mudou, as comunicações explodiram e todos conhecem de cor como todos jogam. Não há novidades. O esquema espanhol é manjado. Mas o conhecimento não foi bastante para a equipe uruguaia encontrar antídoto mínimo contra o insidioso veneno. Haverá esse antídoto ou teremos de beber o veneno até a última gota do cálice? É a questão fundamental do futebol contemporâneo. Mas, afinal, o Bayern não quebrou o jogo do Barcelona? Será que os técnicos não viram esses jogos da Champions? Da maneira como atuou o Uruguai parecia que o estilo espanhol era novidade absoluta para Oscar Tabárez. Deixou-se aprisionar sem qualquer reação.

Outra dúvida: o jogo espanhol será chato também para a plateia? Digo isso por causa das vaias para a seleção de Vicente del Bosque ao longo de quase todo jogo no Recife. Bem, leve-se em conta que, em caso de neutralidade, a torcida pende para o mais fraco, daí a possível preferência pelo Uruguai. Mas, além disso, entendo que o jogo espanhol causa mesmo uma impressão de monotonia, de hipnose. É horizontal demais. Ataca, mas apenas em momentos precisos. Flutua, como beija-flor, e só avança para picar. Pode ser um primor de técnica e inteligência, mas leva ao desespero quem prefere um jogo mais vertical, como o dos alemães. Me identifico com os que acham chato o jogo espanhol. Eu até o admiro, sem amá-lo, como a grande maioria dos meus companheiros de crônica esportiva. Vejo, mas mal posso evitar a vontade de folhear uma revista ou um livro enquanto eles ficam trocando infinitos passes aparentemente (e só em aparência) sem objetivo. Não me lembro dessa impressão de tédio ao ver a seleção holandesa jogar em 1974. Precisaria rever essas partidas históricas.

De qualquer forma, a presença dos espanhóis já garante interesse a esta Copa das Confederações. Será muito bom vê-los testados contra outras tendências de jogo, em particular a italiana e a brasileira. O resto não conta tanto. Nem mesmo o Uruguai, em que pese a sua grande tradição. Uma bela final seria Brasil x Espanha. Jogo para tirar a teima. Ou para cair em depressão profunda.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

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