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O jogo é jogado, lambari é pescado

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h40

Um amigo santista me disse que a rodada de domingo tinha sido perfeita.
“Quer dizer, só não foi perfeita porque não foi a última”, acrescentou. Sim,
os torcedores do Santos e do Atlético-PR estão tendo semana longa, todos à
espera do domingo, quando aí sim cai o pano sobre o último ato do
Brasileirão-2004.
Com a brutal reversão de expectativas pelos resultados dos jogos entre São
Caetano x Santos e Vasco x Atlético-PR, os matemáticos refizeram contas e os
profetas deram uma lustradinha em suas bolas de cristal. Aliás, com a
proximidade do desfecho, fica cada vez mais fácil acertar nos “cálculos” e
nas previsões, desta vez com tudo a favor do Santos. Domingo, com os jogos
encerrados, será o dia do “Eu não disse?” E todos terão razão.
Quanto a mim, mantenho ceticismo total em relação a prognósticos. Para mim,
o futebol é mistério, é mágica, é algo romântico. Não é ciência exata. Aos
números dos estatísticos, prefiro a serena sabedoria dos boleiros, que dizem
sempre: “O jogo é jogado, o lambari é pescado.” A bola é redonda, a partida
começa em 0 x 0 e tem onze pra cada lado. É daí para a frente que se faz a
história do jogo. Penso que seja assim também que se construa a história dos
homens.
Para ficar num exemplo do último domingo, quando o Once Caldas disputou o
Mundial Interclubes com o Porto. Por pouco o retranqueiro time colombiano
estraga a festa do campeão europeu, favorito disparado nas apostas dos
analistas. E, de fato, o Porto fez tudo certo: criou e perdeu vários gols.
Teve um anulado, de forma irregular. Chegaram à prorrogação, e nada. Foram à
disputa de pênaltis, a ratoeira armada pelos colombianos. Nesta, o Once teve
o título nos pés, quando ficou em vantagem, mas seu jogador mais técnico, o
argentino Fabbro, chutou na trave. Os portugueses aproveitaram a
oportunidade e faturaram. Quer dizer, o Porto fez tudo certo e deu em nada.
Caiu no jogo do Once – e neste, venceu.
Onde a ciência de uma coisa dessas? Não vejo. Descreio. E prefiro os
palpites de botequim, que tantas vezes dão certo, desde que não entre em
campo aquele personagem batizado por Nelson Rodrigues de Sobrenatural de
Almeida.
O que pode a lógica contra o Sobrenatural, ou seja, o frango do goleiro
competente, o amarelão do matador, a falha do zagueiro de seleção, a bola
chutada sem pretensão e que entra no ângulo, o morrinho artilheiro? Esses
“acidentes” estão sempre rondando a lógica do jogo, comprometendo-a,
roendo-a por dentro.
Mas também é claro que o segredo é agir como se tudo pudesse ser planejado e
compreendido dentro dessa mesma lógica, e fingir que o acaso não existe. Daí
o sucesso de técnicos obsessivos – como o Luxemburgo – que agem como se
pudessem domar o destino pela escalação correta, pela estratégia, pela
tática, pelo treino. Pela atenção ao detalhe. Deus está nos detalhes, diz
uma velha frase. Outra versão afirma que é o diabo que mora neles. Mas tanto
faz. Cada vez mais, graças ao equilíbrio entre as equipes, os jogos
ganham-se ou perdem-se por um nada, por um fiapo.
Outro amigo comentou: “Certo, ele existe, mas não se pode dar mole para o
Sobrenatural de Almeida; senão ele toma conta, se impõe e aí é o caos.”
Exemplos não faltam: Grêmio, Guarani, Flamengo, Vitória, Botafogo…
Mas, no fundo, qualquer técnico consciente, qualquer boleiro, qualquer
torcedor sabe que há uma margem de imponderável onde a lógica não entra, e
que pode determinar a ida de uma equipe para o céu ou para o inferno.
Planejamento em geral dá certo. Mas nem sempre. De modo que santistas e
atleticanos terão mesmo de esperar pelo desfecho do ato final desse longo
drama. A teoria só vem depois. E até nisso o futebol é uma lição de vida.

16/12/2004

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