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O jogo histórico: Santos 4 x 2 Milan

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h32

22/1/2009

Uma virada espetacular, sob um temporal que parecia a nova edição do Dilúvio, 22 atletas disputando a bola palmo a palmo, em meio à lama — assim foi o jogo da minha vida. Santos x Milan, Maracanã, dia 14 de novembro de 1963, segunda partida pelo Mundial Interclubes: tudo bem, pode não ter sido um primor de tática, técnica, ou disciplina. Para mim, foi e continua sendo o jogo dos jogos.

Não devia ser assim. Quando me convidaram para escrever sobre o jogo de futebol que mais me havia marcado, tentei pensar numa partida recente e vista no calor do estádio. Sendo recente, estaria mais fresca tanto na minha memória como na dos possíveis leitores. E, visto no campo, o futebol se revela infinitamente maior, complexo e emocionalmente denso do que fazem supor aquelas vãs e frias imagens trazidas pela TV. Quem quiser saber o que é o futebol, para valer, tem de ir ao estádio, pelo menos de vez em quando. Isso é dogma.

Mas ninguém engana o coração, e, para o bem ou para o mal, o jogo da minha vida continua lá, na neblina do passado, meio impreciso, perdido para sempre em sua íntegra porque não existe registro completo em tape ou filme. E não foi visto no campo, e sim num prosaico aparelho de televisão em preto-e-branco. Mesmo assim, marcado a ferro e a fogo na minha imaginação, estará para sempre aquele Santos 4 x Milan 2 de 1963, que (hoje eu vejo) me definiu para sempre como torcedor e determinou em boa medida a maneira como vejo o futebol, e outras coisas da vida.

Havia muita coisa valendo naquele 14 de novembro de 1963. Decidia-se o Torneio Mundial Interclubes, entre o vencedor da Copa Libertadores da América e o campeão europeu. Naquela época, o título não era disputado em partida única, em Tóquio, como acontece nos anos mais recentes, mas numa melhor de três jogos. Claro, se um dos times vencesse as duas primeiras seguidas tudo estaria terminado. O Santos já havia perdido a primeira batalha em Milão, por 4 a 2, e precisava fazer o resultado positivo no Rio para forçar o jogo de desempate. Se perdesse de novo, o Milan levaria a taça.

Apesar da derrota fora de casa, havia esperança na virada. E não era para menos. Afinal, aquela equipe do Santos era tida como o suprassumo do futebol e havia chegado à final depois de derrotar o poderoso Boca Júniors dentro do seu estádio, La Bombonera, por 2 x 1, gols de Coutinho e Pelé. Depois de alguns anos em formação, naquele começo dos anos 60 o time da Vila havia atingido o ápice, uma excelência de jogo jamais igualada depois, nem por ele mesmo e nem por outro time ou seleção do mundo em qualquer tempo ou lugar. Era o time das estrelas, o bicho papão, a equipe dos verdadeiros galácticos, o dream team, antes que essas expressões se vulgarizassem e fossem aplicadas a conjuntos menores.

No entanto, naquele jogo contra o Milan havia um considerável desfalque a ser levado em conta: a estrela máxima, Pelé, estava contundido e não poderia jogar. Não havia Pelé, a figura lendária que fazia tudo parecer possível e até fácil. Ficaram de fora também o quarto-zagueiro Calvet e o médio volante Zito, o grande capitão e comandante da equipe. Não que com essas ausências o time ficasse exatamente fraco. Afinal, o Santos entrou em campo naquela noite com Gilmar, Ismael, Mauro e Dalmo, Haroldo e Lima, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Almir e Pepe. Um esquadrão de meter medo nos adversários, com seu uniforme imaculadamente branco, naquele tempo sem qualquer publicidade a poluí-lo.

Vamos admitir, o Milan era também um timaço, que não por acaso havia metido quatro gols no Santos, no Estádio de San Siro, com Pelé e tudo: Ghezzi, David, Trapattoni, Maldini e Trebbi; Pelagalli e Lodetti; Mora, Rivera, Mazzola e Amarildo. Detalhe: o time de Milão contava com dois brasileiros na equipe: Mazzola, o José Altafini, campeão do mundo em 1958, e mais Amarildo, que simplesmente havia substituído Pelé na seleção durante a Copa de 1962, no Chile, quando o Rei sofreu uma distensão muscular.

E esse esquadrão italiano mostrou ao Maracanã toda a sua eficácia ao fazer 2×0 logo no primeiro tempo, gols de Mazzola e Mora. A minha lembrança daquela etapa inicial é a de um Santos nervoso, afobado, tentando chegar ao gol atabalhoadamente, pois tinha de ganhar de qualquer jeito para forçar a terceira partida. Jogando assim, se oferecia de graça ao contra-ataque italiano. Aliás, eles sempre foram especialistas nisso, verdadeiras cobras venenosas que esperam pelos times agressivos lá atrás, defendem-se muito bem e partem em contragolpes rápidos e fulminantes. Com esse estilo, foram enfiando seus gols na defesa do Santos.

Tudo parecia perdido e me lembro da sensação de desalento durante o intervalo. Eu era ainda um menino e portanto ainda não sabia que, às vezes, para chegar ao paraíso você tem de suportar longa travessia no deserto, no sofrimento e na incerteza. De qualquer forma, recordo a tristeza, aquela sensação de impotência diante do mundo real, que raramente se comporta de modo a satisfazer os nossos desejos imediatos (nesse sentido, como em outros, o futebol é escola de vida e formador de personalidade).

Para agravar a já precária situação do Santos, durante o intervalo caiu sobre o Rio de Janeiro uma daquelas chuvas antológicas, um aguaceiro de terceiro ato do Rigoletto, como dizia Nelson Rodrigues. Bem, o Maraca não dispunha de um sistema de escoamento dos mais eficientes e, diante da enormidade do temporal, nem acredito que qualquer engenhoca fosse capaz de escoar águas que caíam em cachoeira como no prenúncio do Juízo Final. O fato é que o campo se converteu em pântano impraticável para o futebol e mais ainda para aquela equipe tida como a mais técnica do mundo, aquele tipo de time que tem de jogar sobre um tapete persa, uma mesa de sinuca, com a bola rolando de pé em pé sobre a grama macia.

Assim era o Santos, mas se quisesse ainda alterar o seu destino diante do Milan teria de jogar pólo aquático. E não é que jogou mesmo? Apesar do meu desânimo inicial, logo vi que o time havia voltado com muita disposição do vestiário. Um “excesso de disposição”, diriam mais tarde alguns críticos, mencionando uma estranha laranjada que teria circulado pelo vestiário no intervalo. Em suas memórias, no livro Eu e o Futebol, Almir admite ter tomado uma “bola” durante o longo tempo em que permaneceram no vestiário. Nada diz sobre os outros jogadores. Outra versão afirma que o Santos estava tão ansioso para virar o jogo que os jogadores ficaram menos de 5 minutos no vestiário. Voltaram logo ao gramado (ou ao que restava dele) e ficaram esperando pelo Milan, sob chuva.

O fato é que os santistas vieram como doidos para o segundo tempo, tomados por uma espécie de furor religioso. Qualquer um podia sentir que estavam dispostos a matar ou morrer em campo, se fosse preciso, para reverter o placar. O primeiro lance de que me lembro (ou será uma trapaça da memória?) foi uma dividida, se não me engano entre Almir e Trapattoni. Almir voou com os dois pés na altura do peito do italiano, mostrando qual seria o tom, o clima e o ambiente de jogo para aqueles 45 minutos finais.
Com sua raça inigualável, Almir começou a fazer a diferença, e o fiel da balança passou a pender para o Santos. Mas foi Pepe quem primeiro vazou o gol milanês, cobrando a falta que Maldini fizera em Coutinho com um daqueles seus canhões que eram a angústia permanente dos goleiros. Logo depois Dalmo cruzava sobre a área e Mengálvio, o falso lento Mengálvio, desviava de cabeça para dentro do gol. Jogo empatado. Eu não acreditava no que via e temi estar sonhando quando Lima, o Coringa da Vila, que jogava em qualquer posição, driblou o marcador, acertou uma bomba da intermediária e fez o terceiro. O Milan parecia perdido em campo. E estava mesmo. Mais ainda ficou quando Pepe bateu outra falta, a barreira abriu e a bola foi para o fundo da rede italiana pela quarta vez.

Em apenas 21 minutos, o Santos havia revertido o placar do primeiro tempo e devolvia a goleada tomada em Milão. Poderia ter vencido por mais, se forçasse. Mas a partir do quarto gol passou a administrar o resultado, para delírio dos torcedores que lotavam o Maracanã.

Essa torcida deve ser tratada como um caso à parte. O jogo quase aconteceu no Pacaembu o que, em tese, seria melhor para a nação santista, pois estaria mais próximo da Vila Belmiro. Mas a diretoria entendeu que o Maracanã, o maior estádio do mundo, o templo do nosso futebol, seria o palco ideal para uma disputa daquela envergadura. E levou o jogo para lá. Claro, muitos vieram de Santos e de São Paulo, mas o grosso da platéia era mesmo carioca. Era gente que adorava o futebol praticado pelo Santos e portanto idolatrava Pelé acima de todas as coisas. A escalação do Rei ficou em suspenso até quase a hora do jogo, mas ele acabou vendo a partida da tribuna, pois não tinha condições de entrar em campo. E, mesmo com Pelé fora do time, a galera carioca torceu apaixonadamente pela equipe na qual ele jogava.

Há explicação para esse apoio dos cariocas ao Santos, apesar da tradicional rivalidade entre São Paulo e Rio. O carioca adora o futebol-arte, praticado com técnica, malícia e refinamento. E nunca houve time, como o Santos dos anos 60, que tivesse elevado tanto esse esporte ao patamar de uma das belas artes. Nesse sentido, o Santos era considerado “o mais carioca dos times”, como certa vez dissera Nelson Rodrigues, e apenas por engano nascera na Vila Belmiro, no litoral paulista. Jogando esse futebol que o brasileiro adora ver e no qual se reconhece, tornou-se o segundo time de cada um dos torcedores do Rio. E, assim, nada menos do que 132.728 pessoas pagaram ingresso para assistir àquela batalha futebolística no Maracanã. Depois da conquista do título, a diretoria do Santos mandou colocar uma placa no estádio, em agradecimento. No bronze lê-se: “Às palmas dos cariocas, o coração do Santos Football Club. Bi-campeão mundial. Rio, 14 e 16 de novembro de 1963.

Almir Moraes Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, deve ser visto como outro caso à parte nessa história toda. Substituto de Pelé, foi vaiado ao entrar em campo, pois havia jogado no Vasco e a maior parte da torcida que lá estava para apoiar o Santos era flamenguista. Jogou tão bem e mostrou tanta raça durante a partida que saiu do estádio como herói. Almir foi um dos bad boys mais carismáticos do futebol brasileiro. Passou por um sem número de times, sempre aliando técnica e espírito de luta. Não tinha medo de cara feia. Batia, apanhava e jogava muita bola. Vestiu a camisa, no sentido literal como no figurado, de cada equipe a que serviu, do Vasco ao Corinthians. Guerreiro, indisciplinado, boêmio e genial, morreu alvejado por tiros numa briga de bar na Galeria Alaska, em Copacabana, em 1973. Inspirou um especial da Globo, um Caso de Polícia chamado O Homem que Incendiou o Maracanã, escrito por Aguinaldo Silva e levado ao ar em 1981. Almir não era mencionado no programa, mas as referências a ele eram tão explícitas que sua viúva ganhou uma indenização na justiça, contra a emissora, em 1984.

Havia ainda outros ingredientes que apimentavam aquele jogo de 14 de novembro de 1963. Mazzola havia sido campeão do mundo pelo Brasil em 1958 e fora jogar na Itália depois da Copa. Mesmo destino de Amarildo, que substituiu Pelé no Mundial do Chile, em 1962. Dizem que o sucesso no Chile subiu à cabeça de Amarildo, apelidado de “O Posssesso”, e agora ele afirmava que Pelé estaria superado e o melhor do mundo seria ele. Uma usurpação de cetro e coroa. Almir, ao tomar conhecimento da história, ficou ofendido e decidiu acertar contas com Amarildo em campo, em nome do Rei. Perseguiu-o durante todo o jogo mas só conseguiu acertar-lhe uma botinada sem bola na partida seguinte.

Falou-se também que a diretoria italiana contava como tão certa a conquista do Mundial já nesse segundo jogo que havia preparado uma sala do estádio com mesa de bebidas, salgadinhos e doces para comemorar o título. Já haviam, inclusive, reservado vôo para a Itália no dia seguinte, confiantes de que não haveria o tira-teima ¬¬– que afinal seria jogado dois dias depois, no mesmo Maracanã, e vencido pelo Santos por 1 x 0, gol de pênalti cometido por Maldini em Almir e convertido por Dalmo.

Todos esses elementos –a rivalidade intercontinental entre Europa e América do Sul, a empáfia dos italianos, a situação de desvantagem, talvez mesmo a ausência do mito Pelé – haviam contribuído para que o jogo se transformasse em autêntica epopéia. Claro, houve o palco inigualável de um Maracanã lotado, e a chuva, que beneficiava mais o espírito de luta do que a técnica refinada. O final foi realmente catártico, um desfecho operístico, com aquelas 130 mil e tantas pessoas acenando seus lenços brancos e cantando “Está chegando a hora…” enquanto os jogadores do Santos botavam o Milan na roda, passavam a bola de pé em pé e faziam o tempo escoar. Foi lindo de doer.

Tão comovente que passei boa parte do segundo tempo com os olhos molhados. Quando o jogo acabou, ainda estava de lencinho na mão, na sala de TV onde assistia ao jogo. Minha mãe passou por lá e quis saber se havia acontecido alguma coisa. “Nada, nada”, respondi. Mas não era verdade. Muita coisa havia acontecido naqueles noventa e poucos minutos de pura tensão, de agonia e êxtase.

Sem nunca ter lido nem ouvido falar em Nelson Rodrigues, havia descoberto, de maneira intuitiva, que um grande jogo tem o formato de uma tragédia grega, como ele escrevia em suas crônicas. Numa delas, publicada em O Globo de 18 de novembro de 1963, Nelson comenta a vitória do Santos naquele mundial: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. E o lindo, o sublime na vitória do Santos é que, atrás dela, há o homem brasileiro com seu peito largo, lustroso, homérico.” O título da crônica é O Divino Delinqüente e, adivinhe só, corre em socorro de ninguém menos que Almir Pernambuquinho em pessoa, condenado por outros comentaristas por seu suposto jogo violento contra os italianos.

Almir não era nenhum santo, mesmo. Mas a verdade é que o pau cantou solto, e de lado a lado, naquelas duas partidas finais. Foram jogos viris, e, para citar mais uma vez essa mesma crônica antológica de Nelson Rodrigues, nela ele diz que “Não se pode exigir, de um jogo de futebol, a cerimônia, a polidez, a correção de uma sessão na Câmara dos Comuns”. Ainda mais em jogo que vale título mundial. Dizem que Nelson não entendia nada de táticas ou de técnica e mal via os jogadores em campo com seus olhos de míope. Pouco importa. Ele compreendeu, como ninguém, o mais importante, a essência: o fundamento dramático do jogo da bola.

Eu já era santista antes daquela partida. Amava aquele time de uniformes brancos, vestidos por uma maioria de jogadores negros, em especial os do ataque, setor onde havia um único branquelo, Pepe, o José Macia, filho de imigrantes espanhóis, que gastava a bola na ponta-esquerda. Acontece que aquele era um time tão excepcional que me deixou mal acostumado. Aprendi com ele a ver tudo de uma maneira fácil demais, com uma certa ligeireza.

Em minha fantasia, a vitória era decorrência quase obrigatória do fato de o time entrar em campo. E a derrota, apenas um improvável e raro acidente de percurso, facilmente corrigível no jogo seguinte. Em sua formação clássica, que se declinava por música – Gilmar, Mauro, Dalmo e Calvet, Zito e Lima, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe – o Santos era mesmo uma equipe praticamente imbatível. Entrava já com grande superioridade moral sobre os adversários e em 1962 havia atingido o seu apogeu, seu ano de ouro, o annus mirabilis – aquele no qual ganhou nove competições seguidas, entre as quais o Campeonato Paulista, a Taça Brasil, a Copa Libertadores da América e o seu primeiro Mundial Interclubes. Conquistou tudo – do regional ao universal. Nesse ano, participou de 64 jogos. Ganhou 46, empatou 10 e perdeu 8. Fez 216 gols (média de 3,37 por jogo) e tomou 60.

Como se vê, mesmo esse time perdia de vez em quando mas, de tão raras, as derrotas eram esquecidas. Ao vê-lo em campo, a vitória parecia sempre tranqüila demais, quase obrigatória, mero cumprimento de rotina, de formalidade. Era uma orquestra de alto nível tocando e passeando sobre os adversários. Com aqueles jogadores, um jogo parecia menos uma disputa, uma luta renhida do que um espetáculo, um show, uma demonstração à maneira das que faziam, em basquete, os magos americanos do Harlem’s Globetrotters.

Em 1963, esse time mítico nada perdera de sua força. Pelo contrário. Jogava de maneira tão magnífica que havia até quem o considerasse melhor e mais aprimorado do que o do ano anterior. Em suma, até aquela partida no Maracanã posso dizer que eu tinha uma visão superficial do que era o futebol. Uma visão infantil, o que se justifica, pois afinal eu era apenas um menino fascinado por um time de super-heróis.

Mas, naquela noite, o Santos que jogou contra o Milan não parecia tão invulnerável assim. Havia os desfalques de Zito e Calvet. Havia, acima de tudo, a assustadora ausência de Pelé. Depois do placar adverso no primeiro tempo, vieram a chuva e o silêncio da multidão. Começou a pairar um ar de derrota sobre o Maracanã. Uma derrota talvez humilhante, uma goleada inclemente, daquelas que se levam pela vida afora, como uma cicatriz sem honra. Naquela noite eu temi pelo Santos. Temi por mim mesmo e vi a fatalidade de perto. Senti o frio da morte. Mas lutamos e sobrevivemos. Aquela virada histórica me abriu os olhos para outra dimensão do futebol, mais plena, mais trágica, mais densa de sentido. Mais humana.

Não me lembro de esquema tático nem nada. Não sei se o Santos jogava em 4-2-4 ou 4-3-3. Sei lá. Na época, isso não tinha a menor importância para mim. Lembro, sim, que Pepe foi um gigante em campo, participando de grande parte das jogadas ofensivas e marcando nos momentos vitais. E que Almir, com sua valentia, foi quem comandou a virada. Heróis foram todos, enfim, do goleiro ao ponta-esquerda, passando pelo massagista e pelo roupeiro. Lembro da emoção. Em certa época, emoção é tudo na vida. E aquele jogo foi adrenalina pura para um coração jovem.

Muitas outras partidas marcaram – positiva ou negativamemente –a minha existência de torcedor. Por exemplo, não esqueço de duas derrotas da seleção, a de 1982, contra a Itália, em Sarrià, e a de 1998, contra a França, na final da Copa, em Paris. A primeira me pareceu injusta; a segunda, vergonhosa. Mas não esqueço também a glória dos 4 a 1 sobre a Itália na final do México em 1970. Ou o 1×0 sobre o Corinthians, gol de Serginho Chulapa que nos deu o Paulista de 1984. E os 3 a 2 do Santos adolescente, também sobre o Corinthians, no Brasileiro de 2002, o jogo das pedaladas do Robinho sobre o Rogério e o fim da longa fila de títulos importantes. Poderia citar outras epopéias e outras hecatombes.

Foram muitos jogos marcantes, e todos me emocionaram demais. Mas considero aquele Santos 4 x Milan 2 de 1963 como uma espécie de grau zero, de mito da origem da minha vida de torcedor do Santos e de aficionado do futebol. Com aquela partida, aprendi que nem tudo se resolve com facilidade ou na base de uma suposta superioridade técnica. A técnica é fundamental, mas de nada vale se não houver determinação, coragem, espírito de sacrifício. Amor à camisa. Deve-se viver e jogar com o coração, do contrário não se vai a lugar nenhum e nada vale a pena.

Amadureci com aquele jogo. Ele me preparou para a idade adulta e tem sido uma lição para a vida toda.

Ficha técnica
Santos 4 x 2 Milan
Estádio: Maracanã (RJ)
Público: 132.728 pagantes
Data: 14 de novembro de 1963
Santos: Gilmar, Ismael, Mauro e Dalmo, Haroldo e Lima, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Almir e Pepe. Técnico: Luiz Alonso Perez, o Lula
Milan: Ghezzi, David, Trapattoni, Maldini e Trebbi; Pelagalli e Lodetti; Mora, Rivera, Mazzola e Amarildo. Técnico: Luis Carniglia
Árbitro: Juan Brozzi (Argentina)
Gols: Milan: Mazzola 13′, Mora, 18′, ambos no primeiro tempo; Santos: Pepe 5′, Mengálvio 9′, Lima 19′ e Pepe 21′, todos no segundo tempo

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