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o juiz comunista

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h23

VENEZA
Para explicar a derrota do Milan para o Cesena por 2 a 0, o dono do clube (e de metade do país), o premiê Silvio Berlusconi, saiu-se com esta. Seu time estaria sendo perseguido por juízes de tendências políticas suspeitas, como Carmine Russo, que apitou o jogo. Ou seja, gente de esquerda, comunistas enrustidos. Berlusconi pode ter se deixado levar pelo sobrenome do árbitro, e se queixava de dois gols anulados de Pato e mais um impedimento mal marcado de Ibrahimovic. Os lances são discutíveis e talvez alterassem o placar. Pato não estava impedido no primeiro. No segundo, a bola na mão ou mão na bola, envolve uma discussão interminável do futebol. Mais fácil saber o que veio primeiro, se a galinha ou o ovo. Mas o interessante do caso é a politização da queixa à arbitragem. Essa eu ainda não tinha visto.
Faz sentido, dentro de uma lógica torta. Se você leu a coluna da semana passada, lembra que escrevi sobre motivações de Berlusconi ao montar um time competitivo para este ano. Aos olhos do torcedor, Berlusconi se identifica por completo com o clube. Se o time vai bem, ele também vai; se o time vai mal, o mesmo acontece com ele. Daí, segundo esse tipo de raciocínio, atribuir o erro de arbitragem a um desvio ideológico, é apenas um passo. Ao prejudicar o Milan, Russo estaria prejudicando Berlusconi e seu projeto político. É mole?
Por essas e por outras é que não acredito nessa história de alguém ser dono de um clube de futebol. Com todos os inconvenientes, e eles são muitos, o nosso sistema me parece melhor. Mesmo que presidentes gostem de se eternizar no poder, sempre podem ser desbancados pelo voto – como aliás aconteceu no ano passado com o Santos, quando o reinado de Marcelo Teixeira foi enterrado pelas urnas da Vila Belmiro. Já o dono da empresa, se quiser fica até morrer. E ainda deixa o clube para os herdeiros.
Com essa derrota, o clima de otimismo que cercava o Milan começa a se esfumar. É cedo demais para isso? É, o campeonato apenas começou, mas, nesse aspecto, o futebol é igual em qualquer lugar. Desperta expectativas antecipadas e frustrações prematuras. Ninguém se dá ao trabalho de esperar pela maturação, pela passagem do tempo, pelo necessário entrosamento entre jogadores que podem ser foras de série, mas nunca jogaram juntos.
Na semana passada, o quarteto Ibrahimovic, Robinho, Ronaldinho e Pato era visto como uma utopia feliz do Milan e do técnico Allegri. Algo corajoso que, apostava um colunista, poderia até mesmo mudar o perfil de prudência do futebol italiano e convencê-lo das virtudes do jogo ofensivo. Hoje, depois da derrota para o modesto Cesena, o quarteto é chamado de “fabuloso”, mas de uma fábula dos irmãos Grimm. Uma quimera, jamais realizável, simplesmente porque não tem ninguém, entre eles, para carregar o piano da marcação. Só o tempo dirá o que pode vir a ser esse Milan tão brasileiro. Quer dizer, se juízes comunistas deixarem.
Mourinho
Futebol é cultura e, quando sai um livro como L’Alieno Mourinho, de Sandro Modeo, devemos comemorar, todos nós que lemos e escrevemos sobre esse esporte. Nunca tive simpatia pelo egoico José Mourinho, hoje no Real Madrid. Mas ele é uma figura ímpar. Despertou simpatias e antipatias acirradas em sua passagem pela Itália. Modeo não busca fazer uma biografia completa do treinador, nem faz elogio acrítico e nem se preocupa com fofocas. Ocupa-se em entender Mourinho e seu método.
Para isso, lança mão de um impressionante arsenal de conhecimentos – neurociência, história de Portugal, pintura, tática futebolística, o legendário técnico húngaro Bela Guttmann, as artimanhas de Houdini, etc. Atira em todas as direções para tirar uma compreensão coerente da cabeça do técnico e, por extensão, desse jogo que nos ocupa a todos. Esse recurso a vários conhecimentos para comprender a arte da bola se baseia numa frase do próprio Mourinho: “Quem entende só de futebol não entende nada de futebol”. Essa, eu assino embaixo.

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