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O Marechal, o jogador, a pátria

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h54

Estamos acostumados a descer sem piedade o pau nos cartolas e a
responsabilizá-los por tudo de ruim que acontece com o futebol brasileiro.
Eles bem fazem por merecer, embora essa busca por bodes expiatórios seja
sempre meio simplista e infantil. Mas por que então dois autores gastariam
seu tempo escrevendo sobre um desses seres mal afamados (Bem, a resposta é
que no caso se trata do Dr. Paulo Machado de Carvalho, magnífica exceção
entre os dirigentes esportivos do país.
Para lembrar os mais jovens: foi ele quem conduziu as delegações brasileiras
nas duas primeiras conquistas de mundiais, na Suécia, em 1958, e no Chile,
em 1962. É dele que trata o excelente livro O Marechal da Vitória, de Tom
Cardoso e Roberto Rockmann, lançado pela editora A Girafa. Paulo Machado foi
empresário bem-sucedido na área de comunicações, fundador da rádio
Panamericana e da TV Record. Mas claro, para nós, boleiros, é sua relação
com o futebol a que mais apaixona. Mesmo porque sua atuação coincidiu com a
época de ouro do esporte no Brasil, quando a fantástica geração formada por
Pelé, Garrincha, Didi, Nílton Santos, Zito, Gilmar & Cia levou o Brasil às
duas primeiras conquistas mundiais, enterrando de vez o trauma pela derrota
de 1950 no Maracanã.
Pelo que se deduz do livro, o segredo de Paulo Machado era unir um jeitão
paternalista e centralizador ao rigoroso planejamento de ações. Quer dizer,
por um lado exercia essa tendência patriarcal e autoritária do patronato
brasileiro, mas temperando-a com dose farta de humanismo. Por outro, usava a
racionalidade do empresário para gerenciar equipe de talentos um tanto
indisciplinados e levá-los a conquista difícil. No livro não há muita teoria
sobre isso, mas esses traços de caráter e estratégias de trabalho se deduzem
a partir das histórias que são contadas, em especial as que envolvem os
jogadores.
Poderia citar dúzias delas, mas o espaço me faz ficar com apenas uma, que,
confesso, me deixou com nó na garganta. Na fase preparatória para o mundial
de 1958, a seleção tinha amistoso marcado em Florença, contra a Fiorentina.
Ora, um dos ídolos do time da casa era o ponta-direita Júlio Botelho, que
fora titular na Copa de 1954, na Suíça. Apesar de ter o lugar garantido no
escrete de 1958 pelo técnico Vicente Feola, Julinho havia declinado do
convite. Jogando no exterior, não achava justo tirar o lugar de atletas que
atuavam no Brasil, que haviam sofrido toda a pressão da imprensa e se
sacrificado durante a fase de treinamento e classificação.
Assim, não iria à Copa. Pior: estava escalado para jogar contra o Brasil
pela Fiorentina. Seria seu jogo de despedida do time italiano, já que estava
de malas prontas para voltar ao Brasil, onde atuaria muitos anos pelo
Palmeiras. /Angustiado com a situação, Julinho procurou Paulo Machado de
Carvalho no hotel onde se hospedava a delegação brasileira: “O destino fez
que eu enfrentasse o meu país, doutor Paulo. Vim aqui pedir autorização para
jogar contra o Brasil.” Paulo Machado lhe respondeu: “Não tem problema, meu
filho. Jogue o seu futebol de sempre, que é grande.”
Apesar da “autorização” do chefe, dizem que Julinho nem de longe exibiu o
futebol fulminante que fez dele um dos maiores pontas de todos os tempos.
Andou escondido pelo seu lado do campo e foi presa fácil do seu marcador,
Nílton Santos, que se aproveitou do abatimento do ponta para ganhar a
posição contra Oreco, do Corinthians, que a cobiçava. Durante o jogo, em que
a Fiorentina perdeu para o Brasil por 3 a 0, Julinho foi visto com lágrimas
nos olhos, apático, traumatizado. Não assimilou, em momento algum, o fato de
estar jogando “contra sua pátria”. Via aquela camisa do outro lado e, pouco
profissional, se comovia. Achei que essa história antiga poderia funcionar
como espécie de fábula moral para a semana em que a atual seleção brasileira
se apresenta para jogar amistoso contra a Croácia. Não há, de minha parte,
nenhuma intenção de comparar os padrões éticos de um Júlio Botelho com os
que vigoram hoje em dia.

16/8/2005

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