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O Mengo e a essência do futebol

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h45

Gostei da conquista do Flamengo. Não é meu time, mas simpatizo com o Mengão, até por razões familiares e de amizade. É time do povo, etc. E também acho saudável para o futebol brasileiro que as longas hegemonias, regionais ou clubísticas, caiam. Senão, tudo acaba ficando chato e previsível. Mas elas têm de cair dentro de campo, como agora, não por uso de expedientes ou golpes baixos.
Há um outro aspecto nessa vitória do Flamengo que fala a este coração, já chamado, para meu deleite, de “romântico”, como se fosse insulto. Hoje em dia, no futebol, fala-se muito, demais até, em estrutura, planejamento, planilhas, gráficos, estatísticas e outros bichos do gênero. Presta-se mais atenção no fluxo de caixa, organogramas e níveis hierárquicos de um clube do que nas belas jogadas de um boleiro. Ou em algum um gol fenomenal – como o do palmeirense Diego Souza no Atlético Mineiro, que nasceu clássico, mas acabou em segundo plano diante da débacle do seu time na reta final do campeonato.
Pois bem: o Flamengo não apresenta nada disso que os tecnocratas da bola consideram fundamental. Não possui grande estrutura, seu endividamento é crônico, troca de técnico no meio da temporada (neste ano todos trocaram, aliás), vive em permanente turbulência política. O que um time desse tem para ser campeão? Tem alguns jogadores acima da média, como Petkovic e Adriano, um técnico-boleiro que não complica a vida de ninguém e, sim senhor, uma imensa e apaixonada torcida a empurrá-lo. “Só” isso. E bastou. A vitória do Flamengo no Brasileirão é a volta a algumas verdades elementares do futebol, anteriores ao Gênesis, e que ficaram soterradas por décadas de chatíssimo, pedante e emburrecedor pensamento tecnocrático.
Estarei com isso fazendo a apologia do improviso e da desorganização? Longe de mim a heresia. Quanto mais ordem e planejamento, melhor. Ninguém vai discutir a importância da “estrutura” – essa palavra mágica na boca dos jogadores quando se referem ao Eldorado, quer dizer, à Europa. Nem tenho nada contra a responsabilidade econômica na gestão dos clubes. Acontece que nada disso substitui o que é ainda fundamental no jogo da bola – o sentido de grupo, o talento individual, a união entre time e torcida. Foram esses fatores que levaram o Flamengo ao título e não a articulação política de um dirigente esperto, a planilha de um gerente iluminado ou a genialidade tática de um treinador. O título do Flamengo pode ser até uma notável exceção, mas devolve ao futebol o que é do futebol e diz respeito à sua natureza mais profunda, se me perdoam a redundância.
O que fica desse Brasileirão? Ficam essa conquista do Flamengo, estatisticamente improvável segundo os matemáticos; a luta comovente e bem-sucedida do Fluminense para se livrar da degola; a dor dos rebaixados e a euforia dos que ganharam alguma coisa. Por fim, a decepcionante trajetória do Palmeiras, que começou como time da moda e nem vaga na Libertadores obteve. Ficam essas coisas simples e humanas, não a bobajada pseudo-tecnocrática que nos despejam durante o ano inteiro.
É que, no futebol, como em outros domínios da existência, temos trocado o essencial pelo acessório com a maior frivolidade. Invertemos prioridades e perdemos o sentido do que é importante e do que não é. De vez em quando acordamos. Em seguida, voltamos a dormir.
PAUSA
A bola para e eu também. A coluna volta dia 5 de janeiro. Este “boleiro” deseja um Feliz Natal e um ótimo 2010 a todos os que têm a bondade de acompanhá-lo.

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