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O mito do cavalo paraguaio

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h51

Rodada após rodada esperamos pela queda dos chamados cavalos paraguaios –
aquele bicho que dispara lá na frente no começo da corrida e depois vai
cedendo passo até acabar comendo poeira dos verdadeiros vencedores. Pois
bem, o tempo vai passando, e a Ponte Preta continua galhardamente na
liderança. Até onde vai? Não sabemos. Pode até começar a cair a partir do
jogo de amanhã contra o Santos. Mas está há seis rodadas em primeiro lugar.
Qual o segredo desse time certinho, sem estrelas e que joga a sério todas as
partidas? Bem, a resposta pode estar na pergunta: é certinho, não tem
estrelas e leva a sério todos o jogos.
O técnico Vadão, que está de saída, definiu a Ponte como um time humilde e
que conhece as suas limitações. É isso mesmo. No atual estágio do futebol
brasileiro, essas pequenas vantagens transformam-se em trunfos da maior
valia. Humildade é palavra muito usada por jogadores, mas pouco posta em
prática. Com os empresários e seus asseclas inflando egos para fins de
mercado, fica muito fácil o salto da chuteira subir até a altura padrão das
passarelas de moda. Por outro lado, times como a Ponte, sem jogadores de
destaque, ficam mais bem protegidos da voracidade dos compradores
estrangeiros. E, cientes das suas limitações, esses jogadores parecem mais
dispostos a se aplicar. Em sua despedida, Vadão disse mais: “Com esse time,
não dá para jogar bonito”. Mas dá para somar pontos.
É isso o que interessa? Bem, pergunte a torcedores do Flamengo, Atlético
Mineiro ou Vasco, por exemplo, se não gostariam de ter os 29 pontinhos da
Macaca. Mas, particularmente, acho que não é só isso que interessa não.
Jogar certinho e de maneira aplicada é um mérito. Mas de um futebol
pentacampeão do mundo esperamos mais. Queremos luxo e exigimos a fantasia.
Como dizia Oscar Wilde: “Dêem-me o supérfluo que eu dispenso o essencial”.
Não chego a tanto, porque vencer é fundamental. Mas, cá entre nós, de que
vale o resultado sem um traço de beleza?
OS BOLEIROS E A POLÍTICA
Em plena ditadura, Pelé disse que o brasileiro não sabia votar (na verdade o
brasileiro não podia votar, o que é diferente). Scolari não perde
oportunidade para elogiar Pinochet e tudo de bom que o ditador fez pelo
Chile. Agora vem o Rogério Ceni. Como todos nós, escandalizado com a
corrupção, Rogério vem dizer que se sente decepcionado com a democracia. Que
a democracia não resolve nada. Bem, Rogério, não resolve mesmo, mas é uma
condição de sociabilidade tão essencial que a sua existência nem deveria ser
objeto de debate. Só quem viveu sob uma ditadura sabe o que é bom pra tosse,
o que não é o caso de Rogério, por causa da idade. O problema da democracia
não é se deve ou não existir, porque isso já está resolvido. O “x” do
problema é saber o que fazemos dela. Pergunte ao Sócrates ou ao Afonsinho o
que pensam sobre isso.
A REALIDADE CONSTRUÍDA
Na noite em que o Real Madrid anunciou que havia depositado US$ 30 milhões
para levar Robinho, o Jornal da Globo apresentou matéria especial sobre o
jogador. Em tom sorridente e comemorativo, a apresentadora anunciou a
transferência do atleta para o exterior, como se, em meio ao lodaçal da
política, estivesse por fim dando uma boa nova ao País. Era a notícia
positiva, aquela que se entrega ao telespectador como um boa-noite otimista,
para que ele possa dormir em paz. Em seguida, a emissora exibiu um clipe com
os melhores momentos do craque e entrevistou gente nas ruas de diversas
cidades do País. Só ouviu coisas positivas, boas, amenas, votos de boa
sorte, etc. Será que mandou algum repórter a Santos, onde hoje Robinho é
filme queimado para uma torcida que se considera traída? Não, o
contraditório foi omitido, como de hábito. Fica a impressão de que quem se
informa apenas pela TV recebe uma visão unilateral da realidade. E talvez
não apenas em matéria de futebol .

26/7/2005

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