As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O moralismo entra em campo

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h48

Depois de quase um mês fora do Brasil, volto e encontro Neymar suspenso. Vi as cenas da briga com Dorival Jr. Não têm justificativa. O rapaz pisou na bola e tinha mesmo de ser punido. A única coisa que me pergunto é: tirá-lo de campo significa punir a quem? A ele, ou ao Santos, que, ao que eu saiba, sua sangue para mantê-lo por aqui e pagá-lo? A punição é ao faltoso ou ao futebol, tão indigente hoje em dia que não pode dispensar um dos poucos jogadores que fazem a diferença?
Faltam craques, sabemos. Para comprovar a mediocridade, que é regra e não exceção, bastaria ter visto o pálido empate entre Guarani e o próprio Santos. O time da Vila tem bons jogadores, mas sem Ganso e sem Neymar é um time assustadoramente comum. E mais do que isso: preguiçoso. Pareceu conformado com o empate sem gols diante de um adversário muito inferior tecnicamente. O Santos chegou a dominar o jogo; se forçasse um pouco, teria vencido. Mas, para que fazer esforço? De qualquer forma, o que se viu foi um futebol sem qualquer criatividade. Faltava uma centelha em campo. E ela só poderia vir de quem estava no camarote, assistindo à partida ao invés de jogá-la. Desse modo, será que o futebol brasileiro pode se dar ao luxo de colocar no banco um dos seus poucos talentos comprovados?
Alguma coisa precisaria ser feita, disse acima, e repito. Mas não me parece caso de tamanha gravidade a ponto de ter despertado uma verdadeira cruzada moralista tendo por alvo um menino e seus destemperos. O ápice veio de quem não se esperava, de um dos poucos técnicos com maneiras e hábitos mentais civilizados, René Simões, que se saiu com esta: “Estamos criando um monstro!” Que destempero. Quanta falta de preparo para enfrentar uma situação que precisa ser compreendida de maneira mais humana, exatamente porque tão complexa e cheia de matizes.
Será que nenhum dos críticos acerbos de Neymar teve 18 anos algum dia? Será que não se lembra de como pensa um adolescente? Para ele, em geral, os pais são umas bestas, o mundo é povoado de gente medíocre e incapaz de compreendê-lo, e ele só encontra diálogo e felicidade em meio à sua turminha, formada de iluminados. Quem já não foi assim? Agora, imaginem essa situação num jovem que se torna um ídolo, que é reconhecido nas ruas, ganha um monte de dinheiro e tem seu rosto todo o dia na TV, nas revistas, nos jornais? Não é para ficar meio fora do eixo mesmo?
Imaginem também a anomalia familiar que representa um indivíduo desses. Em geral, o adolescente rebelde é totalmente dependente da família. Ele até pode se achar o umbigo do mundo e mesmo assim terá de morar com os pais, depender da mesada, da cama e da roupa lavada. A rebeldia fica assim bastante relativizada. E quando se dá o contrário, e o garoto é o arrimo de família e, mais do que isso, a promessa de fortuna, para hoje e talvez para as gerações futuras? Já pensaram no nó simbólico que uma situação dessas é capaz de dar na cabeça de um rapaz – e também em seus familiares?
De modo que o caso de Neymar não é para ser execrado e sim para ser compreendido. Outro dia ouvi no rádio um psicólogo, dizendo, do alto da sua sabedoria, que não via sinceridade no pedido de desculpas do jogador. Quanta arrogância! Quanta invasão da subjetividade alheia! Esses senhores cobram humildade a um menino de 18 anos, mas eles próprios não têm o menor pudor em atirá-lo às feras, como se fosse uma aberração. Neymar é apenas humano. Demasiado humano. Um adolescente confuso, numa situação atípica. Precisa de apoio e simpatia, mais do que qualquer outra coisa.
Isso não quer dizer que seja um santinho. Pelo contrário. Se fosse, não jogaria como joga. Neymar precisa de limites, sem dúvida. Eles virão. Do Santos, de Dorival, de Mano Menezes, que já está de olho nele. Pisou na bola, foi multado, suspenso, pediu desculpas públicas – agora acabou. Vamos botar o menino para jogar, porque o torcedor não tem culpa de nada e é ele, no fundo, o verdadeiro punido nessa história toda.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: