As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Museu do Futebol

Luiz Zanin Oricchio

13 de fevereiro de 2012 | 18h49

Qual a filosofia do Museu do Futebol? Mais do que colocar as pessoas em contato com objetos históricos, a ideia é proporcionar a elas uma imersão na própria experiência do futebol, em seus elementos míticos e narrativos. É um museu pouco pedagógico, no sentido tradicional do termo, que trabalha com a memória e aspectos sensoriais ligados ao futebol e que, por sua vez, procura ligá-lo à cultura e a história do país.

Inaugurado há três anos, o museu possui uma estrutura e uma concepção extremamente modernas. “Ele nasce de um tema e não de um acervo” diz a diretora de conteúdo Clara Azevedo. “Não tem relíquias”, completa o curador Leonel Kaz. “O acervo é o próprio visitante”, diz. De fato, em espaço tão lúdico e interativo, o visitante não é um espectador passivo. Ele participa de modo decisivo na construção da sua própria experiência.

Participa nas salas nas quais é solicitado a jogar (“as de pebolins são as que exigem mais manutenção”, diz Clara), batendo um pênalti num gol virtual que mede a velocidade da bola, ou participando de outros joguinhos bolados pelos curadores do museu.

Mas participa, talvez acima de tudo, com sua memória. Logo ao entrar, vê uma série de figuras com emblemas de clubes estampando as paredes dentre dois andares. O olhar – é inevitável – busca o escudo do time do coração. “Muita gente vem com a camisa do seu time fazer a visita”, diz a diretora. Mas a primeira sala é bastante impressionante, com imagens dos grandes jogadores pairando no ar, como anjos barrocos, em poses improváveis na disputa pela bola. É uma concepção barroca, com movimento e dramaticidade.

Em seguida, vêm os dispositivos para registrar e estimular a fabulação do futebol. “O futebol é uma narrativa, ele vive não do real, mas da maneira como os fatos foram contados e transmitidos de uma pessoa a outra.” Num dos dispositivos, vê-se a maneira como algumas personalidades se recordam dos gols fundamentais de sua vida. Enquanto a pessoa narra, o visitante do museu vê o gol numa tela. Galvão Bueno, por exemplo, conta que o gol da sua vida é, de fato…um não gol: o pênalti que o italiano Baggio perdeu na final da Copa de 1994 e deu o tetracampeonato ao Brasil. “Pensei que fosse desmaiar ao longo daquela série de pênaltis”, confessa o narrador da Globo.

Para os mais saudosistas, há as narrações em rádio, no tempo em que a transmissão de jogos pela TV ainda era coisa de ficção científica. Assim, podem-se ouvir narradores famosos dessa fase pré-televisiva, como Pedro Luiz, ou mais contemporâneos, como Fiori Gigliotti, famoso por seu romantismo, ou inovadores como Osmar Santos. Muita gente curtiu o futebol pelo rádio e não por imagens. Quer dizer, dependeu da voz de quem o transmitia. Muitas vezes, o futebol resume-se a palavras.

Futebol é só alegria? Ledo e ivo engano. Uma sala importante, e das mais visitadas é aquela consagrada à derrota para o Uruguai na Copa de 1950. “Quando a gente ouve risadas dentro da sala, pode apostar que os visitantes são uruguaios”, conta Clara. Em compensação, muitos brasileiros ainda se emocionam com aquela derrota, que Nelson Rodrigues classificou de “tragédia pior que Canudos”. “Muita gente chora, inclusive crianças e rapazes cujos pais não eram nem nascidos na época”, conta. Na pesquisa de imagens sobre o Maracanã sofrendo a perda do título, o Brasil mostrou-se um campo infrutífero. “As imagens vieram todas da Cinemateca Uruguaia”, conta Clara. Ou seja, nossos algozes foram os que melhor documentaram a sua glória…e a nossa desgraça.

Ah, sim, para um museu que não se preocupa em relíquias, apenas uma ganhou lugar nobre – a camisa 10 com que Pelé fez o primeiro gol na final da Copa de 1970, contra a Itália. Também com essa, para que outras?

Tudo o que sabemos sobre:

futebol

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.