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O nascimento do mito

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h48

Estamos todos ainda sob efeito da emoção provocada pela despedida de Ronaldo. A entrevista coletiva do Fenômeno foi tocante. Duvido que o mais duro coração não tenha amolecido, mesmo a contragosto, com as palavras do agora ex-jogador. Eu mesmo fiquei com nó na garganta em vários momentos. Despedidas são assim. Lembram o inevitável fim de tudo. Choramos por quem se despede e choramos por nós mesmos.
Enfim, decisão tomada, Ronaldo sai da vida de jogador de futebol para entrar na História. Torna-se mito e, nesse processo, todas as arestas são limadas e todos os feitos engrandecidos. Basta ver o tom superlativo do noticiário. Nesse momento, qualquer tentativa analítica será vista como indesejável frieza. Normal. A emoção é uma droga benigna, euforizante. Pode entorpecer o senso crítico, mas desperta o melhor em nós. Não acho ruim. Considero essa troca da lucidez pela sensibilidade uma boa relação custo-benefício. Desde que temporária.
Haverá tempo de sobra para a razão. Por exemplo, quando a poeira baixar, teremos de voltar à questão do hipotireoidismo, disfunção alegada por Ronaldo para justificar seu sobrepeso e a permanente dificuldade de se manter em forma. Se ele não pôde se tratar de doença tão grave porque a medicação seria pega no antidoping, teremos de concluir que o futebol profissional é uma atividade criminosa. Acho que os médicos do Corinthians nos devem duas ou três palavras sobre o assunto.
A outra coisa a lembrar mais tarde é que nem sempre Ronaldo foi essa figura unânime que agora parece ser. A natureza “cordial” do brasileiro, somada à emoção do momento, fará com que seja esquecida a faceta polêmica do Fenômeno. Quem tem um pouco de memória sabe que os mesmos que hoje o colocam no patamar da genialidade o responsabilizaram pela derrota do Brasil na Copa de 1998. Verdade que se resgatou no Mundial seguinte, tornando-se, junto com Rivaldo, o principal responsável pelo penta. É pena que em 2006 tenha naufragado, junto com toda a seleção.
É verdade que, ao retornar ao Brasil, Ronaldo teve um ótimo primeiro ano com a camisa do Corinthians. Vocês se lembram. Foi uma volta badalada, cercada de grande expectativa por muita gente e ceticismo por outros tantos. Quando marcou o primeiro gol com a camisa do Timão, e contra o Palmeiras ainda por cima, foi um acontecimento de primeira grandeza. Quando teve uma atuação de sonho na Vila Belmiro, assinalando dois gols de pura arte contra o Santos, houve quem saudasse o ressurgimento do craque extraordinário, pentacampeão do mundo, três vezes o melhor segundo a FIFA. Continuasse assim, justificaria mais uma convocação para a seleção, o que não aconteceu.
O fato é que a quase totalidade da carreira de Ronaldo se deu longe dos nossos olhos. Não por culpa dele. Faz parte das circunstâncias da carreira atual do jogador de futebol, da qual ele foi exemplo acabado. Atleta globalizado, deixou o País ainda garoto para brilhar na Europa. Venceu em vários dos principais clubes da Europa. Conquistou títulos e marcou gols de todos os jeitos. Mas isso não basta. Apesar de tudo o que se diz sobre internet, TV a cabo, Facebook, Twitter e sobre a ilusão de estarmos em todos os lugares ao mesmo tempo, continua a existir um bom e extenso oceano entre a América do Sul e a Europa. Há distâncias ainda maiores, e estas se medem pela régua da dimensão simbólica. Ronaldo, o supercraque, para nós se resumia às suas apresentações na seleção brasileira. E, depois, no Timão.
Ele só voltou a ser nosso, de fato, quando vestiu, com a maior naturalidade, a camisa do Corinthians. E digo “nosso” porque não pertenceu apenas à Fiel, mas também a todas as torcidas do Brasil. Convenhamos, a volta do Fenômeno mexeu com todo mundo naquele ano de 2009. Houve muito ti-ti-ti e os paparazzi trabalharam como nunca. E, sobretudo, houve os gols e jogadas de técnica refinada – que é o que importa.
Voltar ao Brasil e encerrar a carreira num clube de massa foi o maior gol do Fenômeno, a sua tacada de mestre. É a pedra fundamental na construção do mito, que agora começa

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