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O novo Messi

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h22

29/1/2008
A torcida do Santos, que tanto pedia reforços, não tem mais do que reclamar.
Afinal, no domingo, o time entrou em campo com “o novo Messi” vestindo a
camisa sete. Pelo menos é a interpretação do jornal espanhol Marca, que já
comparou o novato Tiago Luís ao titular do Barcelona e da seleção argentina.

Hoje em dia é assim. O garoto faz meia dúzia de gols e umas firulas, e algum
profeta já clama aos quatro ventos: é o novo Robinho, o novo Ronaldinho
Gaúcho, quem sabe o novo Maradona. O céu é o limite.
Tempos atrás, um publicitário conhecido deu uma entrevista comparando as
coberturas esportivas de diferentes veículos. Disse que certa imprensa
tratava melhor as pessoas do que outra, pois “promovia” mais os atletas
emergentes. Por exemplo, um garoto entra em campo como titular pela primeira
vez e arrebenta. A imprensa mais séria, que ele considera sisuda e
mal-humorada, escreve que é preciso dar tempo ao tempo para ver se o menino
é bom mesmo, lembra que muitos fizeram e aconteceram no primeiro jogo e
depois desapareceram, etc. Enfim, essa é uma imprensa estraga-prazeres. Já a
outra, que o nosso marqueteiro elogia e prefere, diante de um caso desses
abre a manchete e crava: “Surgiu o novo Messi”.
Ele vê nessa atitude festiva uma virtude e sua opinião diz tudo o que é
preciso saber sobre o nosso tempo. Vale a manchete, o grito, o relâmpago.
Aquilo que pode faturar alto se for bem embalado e vendido. Como eles mesmos
dizem, se a galinha não cacarejar, ninguém vai saber que botou o ovo. E
outra: o futuro a Deus pertence. Portanto, para que pensar no que pode
acontecer mais adiante? A sociedade publicitarizada (êta, palavrinha) vive
da celebridade da hora. Amanhã, se o garoto não der certo, quem vai se
lembrar da notícia escandalosa? Ou quem vai se importar com o próprio
garoto? Outro Messi imaginário já terá surgido.
Claro, nós, que não nascemos ontem, temos mais ou menos idéia de onde vem
tudo isso. Não se trata apenas de uma questão de imprensa marrom ou séria,
ou mesmo da mentalidade (superficial) de uma época. Trata-se sobretudo do
fator econômico. Muitas vezes, essas “notícias” e manchetes são plantadas
pelos próprios interessados. Ou seja, por quem tem a intenção de negociar o
garoto prematuramente e faturar alto e rápido em cima disso.
Não quero aqui demonizar essa figura do intermediário, que “arranca os
meninos dos clubes e os entrega aos bichos-papões europeus”. Tudo é mais
complexo, mesmo porque a avidez das famílias dos atletas jovens e dos clubes
formadores também tem parte nesse latifúndio. E há outro dado: parasitas só
existem e engordam quando se criam condições favoráveis a eles, como no caso
do Brasil e sua política francamente exportadora de pé-de-obra.
Quanto a Tiago Luís, vamos vê-lo como é. Um garoto promissor, que tem muito
o que crescer e aprender. Fez boas partidas na Copinha e, no primeiro jogo
no time de cima do Santos, mostrou personalidade, bom domínio de bola e
oportunismo. Bem lançado, pode vir a ser titular, mas cabe a Leão orientá-lo
e, se for o caso, baixar um pouco sua bola. Mesmo jogando bem na partida
contra o Bragantino, vez por outra se mostrou individualista demais. E não
sem motivo. Já não haviam enfiado em sua cabeça que ele era o “novo Messi”?
Essa gente que só pensa em dinheiro não sabe o mal que faz aos outros. Ou
talvez saiba, e apenas não se importa.

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