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O ouriço e a raposa

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h30

18/3/2008

Domingo à noite, depois do clássico em que o Palmeiras detonou o São Paulo
por 4 a 1, me lembrei de um antigo poema que fala do ouriço e da raposa.
Antigo? Bom, ponha antiguidade nisso, pois quem falou dos dois bichos foi um
certo Arquíloco, poeta que viveu no século 7 antes de Cristo. Eu nem sei se
naquele tempo a bola rolava na velha Grécia, mas, em todo caso, ele dizia
mais ou menos o seguinte: a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe
apenas uma grande coisa. Uma é cheia de truques; o outro conhece muito bem
apenas um, que lhe basta para sobreviver.
O Palmeiras está com a cara da raposa, que aliás é a mascote do Cruzeiro,
campeoníssimo quando treinado em 2003 pelo mesmo Vanderlei Luxemburgo que
hoje é técnico do Palmeiras. Já o São Paulo, de Muricy Ramalho, se parece
com esse ouriço duro na queda, áspero e obstinado, mas dependente, cada vez
mais, de um “truque’’ solitário, um tipo de jogada manjado por todos e que
continua a dar certo – o cruzamento de bolas na área por Jorge Wagner à
procura de uma cabeçada letal – em geral de Adriano. E foi por aí mesmo que
nasceu o único gol do Tricolor no clássico.
Já a “raposa” Palmeiras dispõe de muitas maneiras diferentes de chegar ao
gol adversário e ontem, em seus momentos felizes do jogo, usou e abusou
desses recursos. Claro, um dirigente são-paulino dirá que foram nada menos
que três gols de pênalti (bem marcados, a meu ver), mas, e os lances que
levaram às penalidades? Não resultaram desse repertório ofensivo mais amplo
do Palmeiras, a raposa da nossa história? Não quero supervalorizar o
trabalho dos “professores’’ (que, no entanto, estão lá para alguma coisa,
certo?). Cabe a eles preparar a omelete com os ovos que têm. E, a esta
altura do campeonato, a cozinha de Luxemburgo parece mais bem abastecida que
a de Muricy, mesmo que este também disponha de alguns jogadores acima da
média brasileira.
Como o próprio Adriano que, por falar nisso, talvez tenha feito no domingo a
sua melhor partida pelo São Paulo.
De qualquer forma, entraram em campo em Ribeirão Preto duas idéias
diferentes de futebol: uma, de jogo duro, marcado, porém de repertório mais
limitado; e outra, de jogo leve, variado, com muito deslocamento e mais
plasticidade na armação e no ataque. Qual a melhor opção? A pergunta não
pode ser respondida de maneira simples. Ouriço e raposa podem se dar melhor
do que o adversário, de acordo com as circunstâncias de momento.
Domingo foi a vez da raposa que, vamos admitir, vai à caça de uma maneira
que nos agrada mais, a nós, brasileiros, que ainda temos na memória um
determinado estilo de jogar bola. Agora, se o ouriço se recuperar, der a
volta por cima, entrar no G4 e for campeão, não ficarei surpreso. Tudo é bem
possível. Mas, passada a fase das reclamações, talvez seja tempo de o São
Paulo reconhecer que não está usando seus recursos com a mesma eficácia do
ano passado. Vendeu muitos jogadores e não os repôs, como costumava fazer.
De qualquer forma, para não ficar em cima do muro, vou logo dizendo que acho
a maneira de jogar do Palmeiras, com muita mobilidade na frente e troca de
posições, mais adequada ao futebol atual. Tende a vencer, desde que o
esquema esteja bem montado e haja jogadores habilidosos para colocá-lo em
prática. O esquema só sai da prancheta para o campo nos pés dos boleiros e
às vezes nos esquecemos disso.

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