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O país do futebol *

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2014 | 13h06

Alguns colegas e amigos ironizam essa expressão. Como podemos ser o país do futebol se a seleção perdeu em casa de 7 a 1, nossos craques jogam no exterior, os estádios atraem pouco público e chamar os dirigentes de medíocres seria fazer-lhes elogio indevido? De fato, tudo isso é verdade. Mas não será por teimosia que entendo ser ainda o Brasil o país do futebol. Seria melhor dizer: “um dos” países do futebol. Pois o sentimento que temos em relação a esse esporte também se encontra em outras nações como Itália, Espanha, Alemanha, Argentina, Uruguai, por exemplo. Todos são países do futebol.

O Brasil não é o país do futebol simplesmente porque gostamos muito desse jogo. É, por outro motivo: porque depositamos nele muito mais do que seria razoável. Tratamos o futebol como algo além de um jogo, um esporte, uma disputa circunstancial, ou um entretenimento. Para nós, é outra coisa, mais fundamental, mais essencial. E essa outra coisa está de tal forma entranhada em nossa vida social que mesmo as pessoas que não se interessam tanto pelo jogo em si, envolvem-se com ele. De tal modo que podemos contar a história recente do país, e a nossa própria, pelo filtro do que aconteceu nos campos de jogo.

Nada disso é estático. Sentimentos mudam com o tempo. Alteram-se com a história. Por isso, a tragédia de 1950 parece ter sido muito maior que a derrota de 2014. Perder uma final em casa para o Uruguai, quando se precisava apenas do empate, gerou todo um trauma nacional e uma literatura inteira. A derrota foi descrita em termos épicos por Nelson Rodrigues e estudada em minúcias por Paulo Perdigão no clássico Anatomia de uma Derrota. Em outra obra marcante, Dossiê 50, o repórter Geneton Moraes Neto entrevistou todos os envolvidos naquele jogo.

Parecia o fim do mundo. E, para nos conformarmos com o fim do mundo, nos esforçamos para entendê-lo. Mesmo que seja impossível.

As reações de 2014 foram diferentes. Indignação, vergonha, raiva contra os 7 a 1 em casa. Mas logo tudo foi tomando seu lugar e o País passou a outros problemas, por que estes não nos faltam. Não observei grande depressão nos torcedores. E duvido que uma obra clássica, como os épicos de Nelson e os estudos de Perdigão, surjam dessa derrota, no entanto inesquecível.

Por que será? Talvez porque sobre a seleção, naquela época, se depositasse o fardo simbólico da afirmação internacional do País. O desejo de mostrar ao mundo que existíamos e éramos bons naquilo que fazíamos. Sessenta e quatro anos depois, a situação já era outra. Se não nos livramos do tal complexo de vira-latas, pelo menos já sabemos o que valemos. Conhecemos também nossos defeitos e limitações, porque todos os povos os têm. Desse modo, não precisamos tanto que a seleção afague o nosso ego e mostre ao mundo nossas qualidades. Por isso, por haver menos coisa em jogo, o trauma pôde ser assimilado com mais facilidade.

Há uma diferença muito grande entre aquele torcedor que saiu calado do Maracanã e este que agora entoava o tedioso “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” nas arenas da Copa e se viu lesado como consumidor. São seres diferentes, em países distintos.

Mas o vínculo com o futebol vai continuar. Não apenas ele representa nossas aspirações, mas também desconfiamos que tenha algo de muito profundo a dizer sobre nós mesmos. O antropólogo norte-americano Clifford Geertz tem uma frase interessante: “Um jogo revela muito sobre os valores das culturas nas quais é praticado e assistido com mais entusiasmo.”

Dessa forma, nossos intelectuais, que durante decênios viram com preconceito ou ignoraram por completo o futebol, passaram a valer-se dele como estratégica ferramenta de conhecimento. Entender o futebol para compreender o brasileiro e suas contradições. Basta ver a presença do jogo da bola nas obras de autores como Roberto DaMatta e José Miguel Wisnik, entre outros. O jogo passou a ser levado em conta pelos intelectuais, por um simples e bom motivo: ele é muito sério para nós, aqui no país do futebol.

Um ótimo 2015 a todos.

* Coluna publicada na versão impressã do Estadão