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O passado, o presente, o futuro

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h27

Vivemos a entressafra do futebol. Sim, sei que os campeonatos europeus estão a toda, Cristiano Ronaldo deve ter sido eleito o melhor do “mundo” e a Copinha começou faz algum tempo. Acontece que meu interesse pelos europeus é apenas teórico e a Copa São Paulo, nesta primeira fase ainda muito inchada, me parece um tédio; passarei a acompanhá-la quando os times de aluguel já tiverem caído.

Portanto encontro-me em estado de privação futebolística, essa espécie particular da síndrome de abstinência de que sofrem dependentes, químicos ou psicológicos. Talvez isso explique o que me aconteceu domingo, quando gozava um dos meus últimos dias de férias.

Dia de sol (raro), volto da praia e, de maneira meio mecânica, ligo a TV. Por acaso, passava um jogo. Uma antiga partida, em preto e branco. Logo reconheci a voz do narrador – Luiz Noriega que, se não me engano, foi o inventor da sobriedade em matéria de transmissão esportiva pela televisão.

Reconheci de imediato as camisas, e nomes familiares começaram a me chegar aos ouvidos, enquanto via a maneira amigável como tratavam a bola: Ademir da Guia, Rivellino, Luiz Pereira, Zé Maria, Leão, Ado…Era um Corinthians e Palmeiras de 1971, duelando pela mais importante das disputas da época – o Campeonato Paulista.

Pensei: “Vou dar uma olhadinha, cinco minutos no máximo, depois vou almoçar e cuidar da vida”. Acontece que a bola ia e vinha, de lado a lado, tocada com tanta qualidade, tanto engenho e arte, que acabei por adiar o almoço e vi o jogo inteirinho. Sim, porque o programa Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura, passou a partida na íntegra, única maneira possível de realmente voltar no tempo e ver como se jogava em outra época.

E assim deixei-me hipnotizar por essas imagens que surgiam do passado. Deixemos de idealizações e nostalgias baratas: nem todos eram craques. Mas havia uma quantidade apreciável de bons jogadores em campo para garantir um espetáculo de alta qualidade ao público (66 mil pagantes) que enfrentou o tempo frio de São Paulo no Morumbi. E, além desses bons e ótimos jogadores, havia os fora-de-série, Ademir e Rivellino, que, sem se encontrarem muito em campo, travavam um duelo particular, à distância, por assim dizer. Ademir cadenciava e ditava o ritmo mais lento, àquela altura favorável ao seu Palmeiras que vencia por 2 a 0, gols de César Maluco. Riva, por seu lado, metia bolas compridas de trivela para a corrida do centroavante Mirandinha ou do ponta-direita, um certo Lindóia.

Lindóia? Não me lembrava desse jogador. E nem de Natal, que o substituiu no segundo tempo. Também não me recordava de Tião, que fez um dos gols do jogo, igualando-o em 3 a 3. Perto do final, Mirandinha marcou o quarto, decretando a vitória do Corinthians por 4 a 3. Jogaço!

Muita coisa mudou desde então. A charanga da torcida palmeirense, que tocava Periquitinho Verde e Touradas em Madri, é coisa do passado, assim como os pontas autênticos, como aquele Lindóia. Onde foram parar Lindóia, Tião, Natal, coadjuvantes de que ninguém hoje se lembra? Já outros personagens daquela tarde passaram à história entre os melhores de todos os tempos, como Ademir da Guia, Rivellino, Luiz Pereira, Leão.

Mas e daí?, perguntarão a leitora e o leitor de bom senso. Para que ver um jogo do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça? E eu vos respondo: serve para nos trazer de volta o prazer do grande futebol. E serve para manter alto o padrão de exigência e vivo o espírito crítico.

Acham pouco?

Sejamos felizes neste 2009.

(Coluna Boleiros, 13/1/09)

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