As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O pé que salva

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h14

Aquela entrada de carrinho de Fizazzi, o gol feito com o bico da chuteira pode ter sido a salvação do Corinthians. Pode, porque o drama não acabou e o Timão tem ainda três passos difíceis para dar e se livrar do rebaixamento. Mas não existe nada de mais corintiano do que aquela redenção na undécima hora, quando tudo fazia crer que a vaca já tinha ido para o brejo e o descenso era coisa certa. Porque, convenhamos, se tivesse perdido para o Atlético-PR em casa, a situação seria trágica, inclusive do ponto de vista psicológico, fator que conta muito nessas horas.
Todo mundo sabe em que condições o Corinthians chegou a essa situação, portanto não vale a pena continuar a repetir. Acontece que o time está demonstrando, em campo, um vigor, uma alma, uma vontade de sobreviver que são dignos de toda a nossa admiração. Outro time talvez já tivesse entregado os pontos e se confirmado com sua sorte. Não o Corinthians. Luta até o fim. E só quem luta até o fim consegue ainda empatar quando ninguém acredita mais nisso. Nesse mundo do futebol, mediado pela mediocridade do lucro imediato, ainda dá gosto ver os jogadores lutando em campo como se suas próprias vidas dependessem disso.
O contraponto ao Corinthians, na rodada, esteve na outra ponta da tabela. O Santos tinha tudo para decidir em casa sua passagem para a Libertadores de 2008, mas jogou de maneira tão indolente e desmotivada que acabou cedendo um empate ao Atlético-MG. Era compreensível a irritação de Vanderlei Luxemburgo depois do jogo. Faltou amor e comprometimento, acusou o “professor”. E faltou mesmo. Parecia, a quem assistiu ao jogo, que os santistas estavam completamente indiferentes ao resultado. Se desse para ganhar, ótimo. Senão, paciência, que ninguém iria perder o sono por causa disso. Estavam lá para fazer seu trabalho, bater o ponto de voltar para casa. Resultado: com o empate em casa, o Santos terá de suar sangue para conseguir uma vaga que já estava em suas mãos.
Portanto, dois empates em casa, objetivamente dois maus resultados, mas com os sinais trocados: o do Corinthians soa como uma vitória, mesmo em sua situação in extremis, porque foi um prêmio pela luta. O do Santos, parece uma derrota, pois foi um castigo a um time preguiçoso.
Jogadores com e sem brio provavelmente existiram desde que a primeira bola foi chutada. Tenho para mim que a falta de comprometimento aumentou muito na nova ordem futebolística. Como tudo é provisório e a camisa que se veste este ano com certeza não será a do ano próximo, parece mais fácil aos jogadores adotar aquela posição do “não estou nem aí”. Como vivem de passagem pelos clubes, podem se lixar para o futuro. O clube vai para a Libertadores Não é comigo, pois não vou estar aqui mesmo. Não vai Eles que se arrumem, pois eu vou estar em outra parte. Parece ser esse o raciocínio, fomentado por uma situação de alta instabilidade, na qual importa mais agradar ao empresário que irá negociá-lo para o próximo clube do que a camisa que deveria defender.
As exceções estão aí e brilham mais porque se tornaram exatamente isso – raridades no burocrático mundo dos negócios em que se tornou o futebol. É o caso de pelo menos alguns dos jogadores desse Corinthians à beira do abismo, com Finazzi e Felipe, entre outros. Foi o caso de Zé Roberto, que sabia que iria logo embora, mas honrou cada minuto que vestiu a camisa que pertenceu a Pelé. É chato viver num mundo em que a dedicação, que seria o normal, torna-se exceção à regra e depende da honradez pessoal de cada atleta.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: