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O peixe morre pela boca

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h39

O peixe morre pela boca – no futebol e na política. O que uma coisa tem a ver com a outra? Muito, a começar pelas consequências de palavras tidas como desastradas. Assim como um candidato pode perder votos por uma declaração polêmica, um técnico pode dançar se disser alguma coisa apimentada, no calor de uma derrota, por exemplo. Não importa muito o teor da frase em si, mas o efeito que pode causar em outras pessoas, em especial se tirada fora do contexto em que foi dita. Dilma parece ter se complicado por declarações passadas sobre o aborto e Silas foi demitido do Flamengo por dizer que não marcava gols contra – isso no dia em que seu zagueiro havia praticado fogo amigo contra as próprias redes. Dilma vai ter de disputar o segundo turno quando tudo indicava que iria liquidar a fatura no primeiro; Silas perdeu o emprego de treinador do clube mais popular do Brasil. Quer dizer, se você é candidato a alguma coisa, ou treinador de algum time importante, ou mantém alguma posição cobiçada por outros, precisa tomar cuidado com o que diz. Muito mais do que com o que você pensa ou faz. Essa é a regra do jogo. Aparências valem muito. E palavras fazem parte do mundo das aparências.

Talvez venha daí o nosso fascínio (muito maior do que seria razoável) pelos treinadores de futebol. Ouvimos o que dizem como se fossem oráculos. Tomamos tudo o que dizem ao pé da letra e bebemos suas palavras como se nelas estivesse contido o mel da sabedoria. O reverso disso tudo é que, quando pisam na bola e dizem algo desastrado, o mundo cai sobre suas cabeças. Amplificamos o peso do que dizem – para o bem e para o mal. Daí o zelo extremo que eles passaram a ter com o que falam, cuidado muito maior do que têm com aquilo que fazem ou pensam.

Palavras podem curar. Ou matar. Ainda mais se aliadas a certas circunstâncias. Silas foi fritado na mesma fogueira que consumiu Zico, uma das poucas pessoas acima do bem e do mal do mundo do futebol, e ainda mais no Flamengo, onde foi e é ídolo maior. Caiu, tragado pela crise geral que ameaça a estrutura do atual campeão brasileiro. Aliás, o que acontece hoje no Flamengo é desafio digno de uma junta de sociólogos, filósofos e psicanalistas. É como se houvesse um desejo de abismo encravado lá no inconsciente da Gávea. Em todo caso, se tivesse calado a boca, é provável que Silas ainda estivesse por lá, apesar da má colocação do time que dirigia.

Silas foi destronado, supostamente vítima de sua declaração infeliz. Talvez repense sua carreira a partir desse mau passo e recorra à metodologia da hora no mundo do futebol – o tal “media training”. Está na moda e vários profissionais da bola a ele se submeteram. Um deles, dizem, é o santista Neymar que, enquanto não domina a técnica de falar com a imprensa, tem mantido o voto de silêncio, como se fosse um monge trapista. Quando estiver mais treinadinho, supõe-se, soltará o verbo. Mas, então, o fará com cautela, pertinência e propriedade. Afinal, vivemos no admirável mundo midiático e toda personalidade pública precisa ser adestrada na arte de se comunicar sem se comprometer. Ou seja, pronunciar um monte de palavras e, no fundo, não dizer nada.

E por que isso acontece? Porque, no futebol como na política, você tem de tomar todo o cuidado para ser anódino, neutro e opaco no que diz, já que existe sempre alguém querendo jogar suas palavras contra você mesmo. O tal do media training, a que os boleiros estão sendo submetidos, é o equivalente, no futebol, ao discurso marqueteiro que matou a troca de ideias e debates (para valer) no universo da política. Depois nos queixamos de que o mundo está ficando chato, sem examinarmos a parte de responsabilidade que nos cabe nessa monotonia sem fim.

Boleiros, 5/10/2010

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