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O pesadelo de Joseph Blatter

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h43

3/6/2008

Para me afastar de um fim de semana horrível no futebol, vou tratar de tema
mais geral. Não sei se vocês estão acompanhando, mas vejo com interesse a
proposta da Fifa chamada de 6+5. O que isso que dizer? Simplesmente que os
times devem escalar no mínimo seis jogadores do seu país para cada jogo.
Com a medida, Blatter pretende brecar a descaracterização radical dos
europeus – o Arsenal, por exemplo, se apresenta muitas vezes sem qualquer
jogador britânico em campo. Não é caso isolado.
A medida visa dois efeitos: na própria Europa, limitar os efeitos do poder
econômico, aumentando a competitividade entre os clubes. Nos países
periféricos, diminuir o esvaziamento dos seus campeonatos, causado pela
sangria de talentos.
Blatter se preocupa também com as naturalizações forçadas, jogadores que
adotam nova cidadania para defender seleções de outros países. Por exemplo,
vários brasileiros participam da Eurocopa, que começa esta semana: Deco e
Pepe, por Portugal, Marcos Senna, pela Espanha, Kevin Kuranyi, pela
Alemanha. Blatter diz que, se medidas não forem tomadas, teremos, no futuro,
uma Copa do Mundo disputada apenas… por brasileiros, de várias
nacionalidades. Esse é o seu pesadelo. Que é também o nosso.
Vou enfileirando essas maltraçadas e já ouço, em surdina, a voz derrotista
que me diz: “É a globalização, é inevitável…” E talvez seja mesmo. Apesar
de terem sido aprovadas pelo conselho da Fifa, as decisões encontram muita
resistência. Há um problema de legislação, pois a União Européia não aceita
discriminação entre trabalhadores dos países membros, jogadores de futebol
incluídos. Assim, europeus natos circulam livremente pelos 27 países da
União. E os de fora? Para esses, existe a indústria das naturalizações.
Muitos brasileiros já têm passaportes europeus, como Ronaldo, Roberto Carlos
e Dida.
Desmontar esse esquema milionário talvez esteja além das forças da Fifa.
Para os grandes clubes é interessante ter jogadores de expressão mundial em
seus elencos. Afinal, aspiram a se tornar entidades planetárias. Isso já
acontece, em parte, com clubes como Real Madrid, Barcelona, Milan e
Manchester, que têm muitos seguidores fora dos seus países de origem. Mas o
objetivo é conquistar o mundo inteiro, como fez, em outra área, o cinema de
Hollywood, esse notável exemplo de globalização cultural de mão única
iniciada nos anos 1920.
Assim, se deseja disciplinar o mercado mundial da bola, Blatter terá de se
opor a interesses financeiros poderosos e enfrentar a legislação do bloco
europeu. Parece demais, mesmo para uma entidade que se orgulha de ter mais
membros do que a ONU. A nós, resta torcer para que esse Quixote derrube seus
moinhos de vento, porque uma mordaça na voracidade européia seria um alívio
por aqui.
Mas, infelizmente, a mentalidade exportadora já se estabeleceu aqui mesmo,
em casa. Não apenas a Europa atrai jogadores brasileiros, mas praticamente
todo e qualquer país que disponha de moeda forte. Da Ásia às ex-repúblicas
soviéticas, passando pelas ilhas Fiji e Faroe, qualquer lugar, com a
possível exceção dos EUA, tornou-se mercado cobiçado pelos boleiros
patrícios. A mentalidade que põe o Eldorado sempre além do horizonte é mais
difícil de mudar do que a legislação. Às vezes, leva várias gerações.
O pesadelo de Blatter tem tudo a ver com o terrível fim de semana no futebol
do Brasil.

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