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O que diria o velho Nelson?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h49

1/7/2008

Vamos supor que o Fluminense ganhe a Libertadores amanhã diante da LDU. Se
fosse vivo, Nelson Rodrigues, tricolor de alma e corpo, diria que a vitória
já estava escrita há 5 mil anos nas tábuas da lei. Caso perca, talvez
dissesse que se trata de catástrofe comparável à de Canudos; ou que a data
seria lembrada como a Hiroshima das Laranjeiras. Aconteça o que acontecer,
não teremos quem cante a vitória, ou chore a derrota, com o sabor e a
genialidade de Nelson Rodrigues.
Mas, também de qualquer forma, não existe, no presente, jogo que interesse
mais ao futebol brasileiro do que esse. Mesmo se você não é Fluminense,
mesmo se for Flamengo e estiver secando, mesmo se corintiano ou santista e
portanto mais preocupado com a série B – mesmo assim, acho difícil alguém
gostar de futebol e permanecer indiferente ao que vai acontecer no Maracanã
amanhã à noite. É jogo para se transformar em grande tragédia ou enorme
consagração. Jogo para mexer com todo mundo. Com a cidade. Com o País
inteiro.
Palpite? Acho que, apesar do primeiro tempo pífio em Quito, o Flu tem
condição de reverter a desvantagem. E acho difícil que esse time leve e
inspirado, um dos melhores do Brasil na atualidade, repita a partida chocha
que fez no Equador. Ainda mais, como deverá ser o caso, quando empurrado por
sua grande torcida no Maracanã. Em qualquer caso, deverá ser um grande
jogo.Tenso e emocionante jogo, desses que o Campeonato Brasileiro tem nos
sonegado sistematicamente.
Sim, porque é impossível deixar de observar o contraste entre competições
como a fase final da Libertadores e da Eurocopa e o marasmo do nosso
principal campeonato. Nesta rodada do fim de semana foram seis empates.
Isso, em si, quer dizer pouco, pois existem empates exuberantes, cheios de
adrenalina e emoção. Não foi o caso, pelo menos nos jogos que pude observar.
Talvez a maior façanha da rodada tenha sido a do Flamengo, que derrotou o
Sport na temível “Bombonilha” – perguntem ao Corinthians se ele sabe o que
isso significa. Mas os empates entre Santos e Portuguesa, Cruzeiro e São
Paulo, Fluminense e Botafogo, Grêmio e Internacional deixaram um perfume de
tédio no ar.
E não me venham dizer que a culpa é do sistema de pontos corridos. Você pode
ver excelentes e emocionantes jogos nesse sistema. Mas, para isso, é preciso
haver motivação e qualidade técnica mínimas. Senão, com o perdão da palavra,
a vaca vai para o brejo, como parece ir há tantos anos, sem se atolar de
vez, mas sem conseguir se safar jamais do pantanal.
Pobre futebol brasileiro, que vem sendo, com razão, comparado
desfavoravelmente ao da Europa. Eles, os “retranqueiros duros de cintura e
escravos da tática”, se revelam criativos, inclusive consagrando uma seleção
de toque de bola como a da Espanha. E nós passamos a ser os limitados, o
paraíso dos volantes de contenção, beques de fazenda e atacantes inócuos.
Uma vez acabada a Libertadores, terminada a Eurocopa, e encerradas as
celebrações da mais bela das Copas, a de 1958, é com o Campeonato Brasileiro
mesmo que teremos de nos contentar. Chegou a hora de cair na real. E já que
comecei com Nelson, termino com ele. O que não diria o mais nacionalistas
dos escribas ao ver a Europa praticando o futebol ofensivo que o Brasil de
hoje considera ultrapassado e não tem mais coragem de jogar? Que o mundo da
bola está de pernas para o ar?

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