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O que esperar do Brasil?

Luiz Zanin Oricchio

13 de outubro de 2015 | 17h23

Sinto certa preocupação com o jogo de daqui a pouco com a Venezuela, em Fortaleza. Em condições normais de temperatura e pressão, isso não existiria. Afinal, a Venezuela era um dos mais fieis fregueses de todo mundo que sabia jogar bola na América Latina. Agora, não mais. Acho até bastante provável que a seleção vença. Mas não me espantaria com outro resultado negativo, um empate, ou mesmo uma derrota. Pode acontecer. É difícil, mas pode.

Mas a preocupação vai além disso. Noto que tanto Dunga quanto alguns jogadores têm receio de uma certa impaciência da torcida. Por isso, a ordem é atacar e tentar fazer um gol logo de saída, o que colocaria o público cearense para jogar “com” a seleção e não “contra” ela. De modo geral, a torcida nordestina sempre foi mais favorável à seleção do que as do Sudeste e Sul. Isso é histórico. Mas nem mesmo com essa tradicional boa vontade do Norte e Nordeste está se contando.

Achei sintomático que Daniel Alves tenha dito que a seleção “não pode pagar a conta” do que está acontecendo no Brasil. Ora, o que está acontecendo no Brasil? Vivemos uma guerra política sem tréguas e uma crise econômica que, ao que tudo indica, ainda vai crescer e piorar a vida de toda gente. O país está de mau humor. Está chato. Intolerante. Nunca vi o Brasil desse jeito. Nem na época da ditadura. Todos aparecem por aí de punhos cerrados e dentes à mostra. Daí a preocupação do jogador do Barcelona.

O que o fez falar um monte de besteiras do tipo “os jogadores são obrigados a sair do Brasil porque aqui não podem se desenvolver”, etc. Ora, ninguém está perguntando isso e nem questionando o direito do cidadão de trabalhar onde melhor lhe pagam. Mas é evidente que os salários de boleiro, se comparados à média do que ganham os brasileiros, são mesmo obscenos. Aqui mesmo no Brasil. Eles acham pouco. Qualquer cabeça de bagre ganha 150 mil ou 200 mil reais por mês. Você ganha isso? Ou um décimo disso? Ok, eles têm mercado e o mercado, hoje, é a lei da vida. Vão para a Europa tornar-se milionários. Bom proveito. Mas não precisam ficar se desculpando.

O fato é que a seleção vem há muito tempo se distanciando do povo brasileiro e a questão salarial não entra na equação. Pelo que me lembro, ninguém ficava perguntando quanto ganhava Pelé, ou Sócrates, ou Zico. Certamente ganhavam muitíssimo mais do que o mais bem-sucedido dos executivos patrícios. Mais do que qualquer professor-doutor ou cientista. O que dizer do povão? Mas, como artistas da bola, desempenhavam dentro de campo, davam alegria, beleza e resultados. Eram o orgulho do país e nunca os vi questionados por isso. Muito pelo contrário.

Hoje, tirando Neymar, quem é a estrela de primeira grandeza dessa seleção? Este, mesmo enredado no fisco de dois países, pelo menos joga bola. Quando não está em campo, como será o caso hoje à noite, não há quem o substitua. Daniel Alves tem razão de estar preocupado. 

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