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o que nós queremos da seleção?

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h11

Essa pergunta foi feita um dia por minha mulher: “mas que diabos vocês tanto exigem da seleção?”. Não me lembro direito do contexto. Mas suspeito que tenha sido durante a Copa de 2006, num daqueles jogos que a seleção venceu sem convencer, e avançou… rumo ao desastre. O “vocês” que ela me jogava na cara se referia tanto a “nós”, da crônica esportiva, como a “nós”, gênero masculino em sua totalidade, a tal torcida brasileira, conhecida pela exigência e intransigência com a seleção. A certa altura da partida, em que a canarinho jogava particularmente mal, e era cada vez mais criticada pelo comentarista do canal em que assistíamos ao jogo, ela, em desespero, pediu, ou antes, ordenou: “Muda para o Galvão, pelo amor de Deus!”. Garantia de ufanismo, torcida incondicional. Mas diante de certas exibições da seleção brasileira, nem todo o ufanismo do mundo é capaz de tapar o sol com a peneira.
Domingo foi um desses dias. Foi tão ruim que, em tema tão controvertido como o futebol, chegamos a um raro consenso: não fossem a falta de pontaria dos equatorianos e a grande atuação de Julio César, a seleção teria sido humilhada com uma goleada histórica. Jogar mal é da vida; já vi até Pelé jogar mal, ou aquém do que dele se esperava. Agora, jogar de maneira covarde, como time pequeno, é outra. Dava até dó ver uma seleção pentacampeã do mundo acossada daquele jeito por um time que, com todo o respeito, é de terceira linha. Claro que é uma questão tática e também técnica: o que fazem certos jogadores com a camisa da seleção brasileira? E de que adianta colocar Ronaldinho Gaúcho no meio de campo se ele se esgueira durante o jogo, como uma sombra de si mesmo? Há tudo isso. Mas há também uma questão de atitude, de orgulho próprio, de mínimo compromisso com o passado daquele time.
De modo que volto à pergunta da minha mulher: o que esperamos da seleção? Digamos que, durante um bom período, esperamos muita coisa: títulos e bom futebol. Afinal, no Brasil, tínhamos certeza, jogávamos o melhor futebol do mundo. E, escolhendo os melhores entre os melhores, não havia como dar errado. Tivemos algumas desilusões, é claro (1966, 1982) que atribuímos a fatores vários – má administração, salto alto, o peso do destino, etc. Mas, de maneira geral, a seleção nos satisfazia. Atendia aquilo que dela esperávamos.
Depois o futebol mundial mudou e, com ele, a seleção. Tornou-se cada vez mais distante, os jogadores passaram a ser estranhos com quem convivíamos (pela TV) durante as Copas. Mesmo assim, houve uma sequência memorável: campeões em 1994, vices em 98, campeões de novo em 2002. A seleção cada vez mais apartada do seu país, um ser já meio abstrato em nossas vidas, mas, ainda assim, eficiente. Copeira. Depois veio 2006 e estabeleceu-se um patamar mais baixo de expectativa. De tudo o que aconteceu na Copa da Alemanha, dos preparativos aos jogos em si, ficou uma imagem de desleixo, de descompromisso, de predomínio da filosofia do “não estou nem aí”. Dunga, em tese, veio para corrigir esse rumo. Tornar o time pelo menos aguerrido, brigador, orgulhoso de si. Não conseguiu. Como, aliás, seria de se prever, pois esse tipo de atitude mental não está disponível no mercado, não é alcançada por decreto e nem se compra com cartão de crédito. É fruto de determinadas circunstâncias, históricas e econômicas. Em síntese: ou se tem, ou não se tem. E ponto.
Já quisemos muito da seleção: show de bola, com jogadas geniais, criativas, de encantar o mundo. Já quisemos títulos, grandes conquistas, partidas memoráveis, daquelas que entram para a história do esporte. Hoje, diminuímos muito nosso nível de exigência. Queremos talvez um pouco de vergonha na cara. Por exemplo, jogar de igual para igual contra uma “potência” como o Equador. E nem isso estamos obtendo. Melhor desistir de vez.

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