As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O ramo de Dioniso

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h58

Todos colocamos muito de nós mesmos nesse esporte chamado futebol. Por isso, é talvez inevitável que nos interessemos pela chamada “vida extra-campo” dos craques. Podemos ser civilizados a ponto de admitir que o que acontece fora das quatro linhas é do foro íntimo de cada um. E é isso mesmo. Não temos nada que ver com a vida particular deste ou daquele jogador. Ele é um profissional e tudo que podemos exigir é que defenda direito a camisa do nosso clube de coração. Isso é o racional. E funcionaria na prática, fosse a profissão de boleiro como outra qualquer, digamos advogado, dentista ou serventuário da Justiça. Sobre o jogador, no entanto, projetamos nossas esperanças e sonhos; projetamos também nossas frustrações, às vezes nosso ódio e preconceitos.
Por isso não conseguimos ficar indiferentes a um momento como o das lágrimas de Denílson depois do jogo contra o Internacional. Denílson marcou, foi considerado o melhor em campo. Ele, dado como acabado para o futebol, jogador improdutivo, de fantasia, uma espécie de foca amestrada e já com prazo de validade vencido. Pois bem, esse jogador retorna, ganha um voto de confiança e reencontra um futebol que há muito não jogava. No domingo, as lágrimas corriam por seu rosto ao dizer que era muito difícil quando ninguém acredita mais em você. E por que duvidar dele? Não tenho a mínima idéia se Denílson vai continuar a render bem em campo, se sua atuação contra o Inter foi fogo de palha, etc. Isso, só o tempo dirá. Mas, que ele teve no domingo o seu momento de volta por cima, conforme aquele velho samba de Paulo Vanzolini, lá isso ele teve. E foi bonito de ver.
Como também é agradável assistir à redenção de outro jogador, este ainda na flor da idade, Adriano, que veio ao São Paulo na condição de caso perdido e tem sido o principal definidor da sua equipe. Dá para ver o brilho de volta ao olhar do Imperador, que já vai embora de volta para a Europa, mas, pelo jeito, deixa sua passagem breve marcada na memória do torcedor são-paulino. Hoje em dia, tudo dura pouco, e tudo é espuma. Portanto, esse tipo de lembrança é o máximo a que se pode aspirar.
Se não conseguimos ficar indiferentes às lágrimas de um ou ao júbilo do outro, da mesma forma nos envolvemos, emocionalmente, nos escândalos, nas fofocas do futebol, como se viu recentemente com o caso Ronaldo. Também o Fenômeno aos poucos vai se afastando da onda negativa criada com o chamado affair dos travestis. A notícia de que a namorada estaria grávida, e o reatamento do relacionamento, parece que deram novo astral ao jogador. Passado o escândalo inicial, e o triunfo pouco duradouro da imprensa marrom, parece que o bom senso vai se impondo. Ronaldo deu uma pisada na bola; apenas isso. Por que então crucificá-lo? Quando vi na TV uma charge com Pelé pondo Ronaldo no colo e dando-lhe umas palmadas na bunda, pensei comigo que o caso estava se diluindo. Lembrei de que o símbolo de Dioniso, o deus grego da festa, da dança e da embriaguez, é um ramo. Os pecados de Dioniso, que são os pecados do excesso, devem punidos com moderação, usando como açoite um raminho inofensivo que não faz mal a ninguém. E é isso mesmo. A tolerância é uma grande virtude pouco exercida num tempo em que todos se acham investidos da condição de justiceiro e se sentem donos de uma verdade geral e irrecorrível.
No campo
Com o Brasileirão ainda fazendo seus primeiros movimentos, o jeito é entrar de cabeça numa semana que promete emoções fortes. Hoje, Botafogo x Corinthians; amanhã, São Paulo x Fluminense; na quinta, Santos x América. Jogos decisivos, no fio da navalha. Quem se arrisca a palpites. Acho os dois primeiros jogos equilibradíssimos. Já no terceiro, o Santos deve ganhar, mas conseguirá a vitória de que precisa, com dois ou mais gols de diferença? Essa é a questão.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: