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O sal e o fel do futebol

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h30

Amigos, para quem gosta de futebol ou pelo menos de um certo tipo de futebol, o Paulistão está para ninguém botar defeito. A rodada terminou com muita emoção e a tabela totalmente embolada. Os times do interior deram uma afrouxada (segundo eles com a gentil contribuição da arbitragem) e três dos grandes encontram-se em condições de se classificar para as semifinais.
Aliás, se a primeira fase terminasse hoje, apenas o Corinthians estaria dentro. Depois do bom resultado contra o líder Guaratinguetá, seria o único dos grandes a disputar o título, mas convém lembrar que São Paulo e Palmeiras estão na porta do G-4, prestes a entrar. O tricolor parece meio cansado, como confessou Muricy. Mas o Palmeiras encontra-se em franca ascensão e com o moral alto depois da virada espetacular que aplicou no Bragantino ganhando por 5 a 2 depois de estar com dois gols em desvantagem. O único que ainda me parece alijado da disputa pelo título é o Santos que, embora animado pelas vitórias seguidas, uma na Libertadores outra contra o Noroeste, ainda sonha com o tri no Paulistão. Mas deve ser sonho de uma noite de verão, pois mesmo vencendo continua irregular (desaba no segundo tempo) e acaba de vender o último remanescente do meio-de-campo do bom time do ano passado, o volante Rodrigo Souto. Quem quer títulos não vende peças-chave. Compra.
E a Portuguesa, hein? Será que se candidata a finalista depois da bela vitória sobre o São Paulo por 2 a 0? Cabe lembrar que a Lusa vem sendo o terror dos clássicos, desde quando liquidou o Santos, também por 2 a 0, logo na abertura do campeonato. Seria muito legal ver a Portuguesa disputar o título, para glória da sua pequena porém aguerrida torcida – aquela mesma que foi menosprezada por esse grão-senhor do futebol que é o presidente do São Paulo. Ele pode ter até falado a verdade ao dizer que Portuguesa jamais seria um clube grande porque não tem uma grande torcida. Mas há coisas que a polidez recomenda calar – até por uma questão de elegância, essa virtude tão valorizada como pouco praticada pela autodenominada “elite” brasileira.
Mas é claro que, além das partidas interessantes, vários incidentes vieram apimentar o cardápio do Paulistão. Uma cota do tempero deve-se à nossa querida arbitragem, sempre pronta a fornecer emoção quando o próprio jogo não o faz. Juiz que dá dois cartões amarelos ao mesmo jogador e não o expulsa, bandeira que vê o pênalti, mas não sinaliza para o árbitro, a costumeira incapacidade de cumprir a regra do impedimento – tudo isso fez a festa do fim-de-semana nos estádios e nos botequins da segunda-feira, esse dia ingrato.
Um dia Joseph Blatter disse que era contra os meios eletrônicos no futebol porque estes tirariam a polêmica da interpretação dos lances. Nesse caso, seria interessante o presidente da FIFA atribuir uma medalha de honra ao mérito aos juízes brasileiros que, com suas extravagâncias, fornecem material de primeira linha à comédia do futebol.
Esse é o lado animado e gostoso do jogo da bola que, aconteça o que acontecer, sempre estará por aí, a preencher o vazio dos nossos dias. O outro, o da dura realidade, veio na palavra do técnico Emerson Leão ao comentar a saída de Rodrigo Souto para a Rússia: “O futebol brasileiro está inteiramente à venda”. Não é a primeira vez que Leão diz essa frase. E nem isso é novidade para quem quer que minimamente acompanhe o futebol. Mas ouvi-la assim, na lata e sem anestesia, sempre dói um pouquinho, pelo menos em quem ainda tem um resto de brio.

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