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O velho e o novo

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h21

Dei um mau passo neste domingo. Esperando pelo início da rodada, zapeei pela TV depois do almoço. Sabe aquela hora morta em que você acabou de comer, o vinho ainda está pesando, não dá vontade de ler, etc…? Passei pela TV Cultura, onde iniciava o programa Grandes Momentos do Esporte. Começava um jogo antigo, e ponha antigo nisso: de 1966. Uma partida entre Santos e Benfica, disputada em Nova York. Quem narrava era Geraldo José de Almeida, o Galvão Bueno da época. Mas ninguém precisaria ser ufanista para sentir orgulho do que se via em campo. Pelo Santos, além de Pelé, havia jogadores como Mengálvio, Lima, Zito, Carlos Alberto Torres, Edu, Dorval, Toninho Guerreiro, Gilmar. Mas o Benfica também não era fraco não: Eusébio, Torres, Simões, Jaime Graça, o goleiro Costa Pereira.

Que jogaço! Parecia outro esporte. Bola de pé em pé, rápida, junto à grama, tocada com elegância infinita. Pelé fez um gol de antologia e deu passes para outros dois. A cada vez que a bola passava por ele havia uma iluminação. Um drible, um cortaluz, uma tabela, um toque rápido para o companheiro. Engraçado, dizem que no futebol antigo havia mais espaço. Pode até ser. Mas quando Pelé recebia a bola, estava sempre cercado por três ou mais portugueses. E mesmo assim…Uma vez, durante entrevista, ele me disse: ”O craque descobre seu espaço”. É isso. Um jogo para se ver em estado de graça. Placar final: 4 a 0 para o Santos.

Perguntaria o leitor, pasmo: e de que serve ver essas velharias? Eu respondo com outra pergunta, como fazem os galegos: para que ler Machado de Assis, ouvir Mozart, olhar para um quadro de Cézanne, uma estátua de Michelangelo? Simples: para saber até onde essas artes podem chegar e para melhorarmos como pessoas. Vendo um Santos e Benfica dos anos 60, ficamos sabendo até onde o futebol, como arte, foi capaz de ir. Nada disso é saudosismo, antes que me venham cobrar. É respeito e culto a esse grande jogo. Se ele já foi daquele jeito, por que não pode, pelo menos, se aproximar novamente daquilo? Não custa sonhar.

Mas como não se vive nem de sonhos e nem de esperança (embora ambos ajudem e muito) é preciso voltar ao mundo real. E a realidade foi uma rodada até que interessante do Campeonato Brasileiro. Vi a reabilitação do Corinthians, que se aproveitou dos desfalques do Atlético Mineiro e encerrou o jejum de cinco partidas sem vitórias. Dei uma espiada em mais um passo da inesperada ascensão do São Paulo, na vitória suada sobre o Sport-Recife. E emendei com um sofrido Cruzeiro 0 x Santos 0. Devo admitir: o segundo tempo até que não foi tão ruim, pois os dois times sabiam que só a vitória interessava e então se lançaram ao ataque. Houve momentos que, com alguma condescendência, poderíamos chamar de “eletrizantes”. Tanto assim que os dois goleiros foram os melhores em campo, o que quer dizer alguma coisa. Enfim, consegui alguns momentos de entretenimento, distração e mesmo emoção nesses jogos que vi.

Desse modo, ainda com algumas partidas a serem feitas, o primeiro turno chega ao fim. Andei lendo, ouvindo e vendo algumas projeções, algumas delas definitivas sobre quem deve brigar pelo título e quem deve cair. Não tenho tantas certezas. Acho que tudo continua muito indefinido, com as exceções óbvias, pois há times muito bem classificados e outros já seriamente no atoleiro. Mas o futebol que se joga hoje no Brasil é precário e lotérico demais para que se façam prognósticos com tanta certeza. Uma das poucas vantagens do baixo nível técnico, talvez a única, é que tudo fica mais indefinido e aberto à interferência do acaso.

(Coluna Boleiros, 18/8/09)

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