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Olhosde lince

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h12

7/11/2006

Depois do jogo Santos x São Paulo, coloquei no nosso blog de Esportes, Bate
Pronto (http://blog.estadao.com.br/blog/batepronto), um post com o título “O
tira-teima é burro”. Muitos internautas o comentaram e por isso retomo o
tema, que julgo de boa atualidade. A referência imediata é, claro, ao
suposto impedimento de Rodrigo Tiuí no lance que redundou em gol de Zé
Roberto. Não interessa dizer se houve gol anulado ou se a jogada já estava
parada antes e nada que viesse depois valeria. Não é esse o ponto. O ponto é
saber: qual o grau de precisão desse equipamento? Podemos (devemos) confiar
nele, cegamente, por assim dizer?
Ora, em todas as repetições da jogada, quando vista a olho nu, observamos o
Tiuí e seu marcador na mesma linha – quer dizer, a posição seria legal.
Digamos que o lance foi muito rápido e que seria uma marcação dificílima
para o auxiliar. Deve ter passado por sua cabeça o lampejo da incerteza.
Neste caso, ele deveria seguir a instrução da Fifa que manda beneficiar o
atacante em caso de dúvida. Optou pelo contrário.
A segunda referência do título do post era a Nelson Rodrigues, para mim (e
mais a torcida do Flamento junto com a do Corinthians) o maior cronista
esportivo que este país já teve. Pois bem, certa vez, numa mesa-redonda,
discutia-se se um gol do Fluminense havia sido regular ou não. Nelson era
tricolor fanático e não escondia seu time de coração. Pelo contrário, o
ostentava. Para encerrar a discussão, Armando Nogueira disse que o videotape
provava que o gol do Flu havia sido irregular. Nelson não hesitou um segundo
para responder: “Ora, o videotape é burro!”
Podia estar ali falando o torcedor do Fluminense, que defende seu time de
maneira unilateral. Mas, por trás do torcedor, ou à sua frente, como prefiro
pensar, estava o sábio, que enxergava mais do que os outros. Estava aquele
que compreende muito bem que a tecnologia, construída pelo homem, não existe
para substituí-lo e nem pode fazê-lo. Pode, apenas, ser uma linha auxiliar
no julgamento e nunca a palavra final. A desconfiança de Nelson em relação
ao videotape nada tinha de tendenciosa, ou de obscurantista. Dependendo do
ângulo adotado por uma câmera, pode-se chegar a uma conclusão ou à sua
oposta. Perguntem isso a qualquer cineasta, a qualquer documentarista, a
qualquer desses indivíduos que têm como profissão captar imagens do “real”.
Eles sabem muito bem que interferem no real ao registrá-lo e que toda a
realidade não passa de uma versão do real. O olho da câmera não é mais
neutro do que o olho humano. Com a diferença de que o olho humano tem a
inteligência a guiá-lo. A inteligência e suas limitações: o mesmo olho de
lince que viu o impedimento de nove centímetros (segundo o tira-teima), não
enxergou a agressão de Lenílson em André. O olhar pode ser seletivo.
Outra situação: a câmera flagra a mão do defensor encostando num atacante,
como aconteceu no lance entre Asprilla e Luiz Adriano que decidiu Botafogo x
Inter em favor dos gaúchos. Ou no suposto pênalti sobre Roger. O contato é
suficiente para caracterizar a falta? Depende da intensidade do contato. A
câmera não a mede, ainda mais quando a imagem é reproduzida em slow motion.
Apenas um juiz bem intencionado e próximo ao lance, com seus olhos que a
terra há de comer, pode distinguir entre o mero contato físico e o empurrão
faltoso.
Tudo isso é matéria de discussão. Por que bastaria a palavra do tira-teima e
da Globo para encerrar a polêmica? Precisamos de alguma entidade que pense
por nós ou podemos fazê-lo com nossas próprias cabeças? A pergunta, é claro,
vai além dos limites do futebol.

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