As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Onde a grama não cresce

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h43

Dida será o primeiro goleiro titular negro da seleção desde Barbosa. Quem?,
irá perguntar o leitor mais jovem. Moacir Barbosa, goleiro de 1950, que
acabou estigmatizado pelo gol tomado do uruguaio Gigghia na final da Copa,
quando o Brasil perdeu o título dado como certo. Essa é considerada a maior
tragédia do futebol brasileiro. Nelson Rodrigues a chamava de “a nossa
Hiroshima”. Às vezes usava uma variante e dizia que aquela derrota era uma
humilhação “pior do que Canudos”. Dida, em entrevista na Suíça, disse a
coisa certa: deveriam pensar nas defesas que Barbosa fez e não unicamente no
gol que tomou.

Verdade pura. O problema é que ao goleiro não é dado o direito de errar,
como aos jogadores das outras posições. Um atacante pode ser vaiado pelo gol
perdido. Mas as conseqüências nunca são tão graves quando se trata de um
goleiro que falhou em bola defensável. Daí a condição trágica dessa posição.
Antigamente se dizia que onde ele pisava não nascia grama. E esse foi o
destino de Barbosa. Já idoso, ele se lamentava de que embora a pena máxima
no Brasil fosse de 30 anos, a dele era uma condenação perpétua. Cabe lembrar
que, junto com Barbosa, outros dois jogadores foram responsabilizados pela
derrota para o Uruguai – Bigode e Juvenal. Ambos também negros.

Na visão preconceituosa da “elite branca” (para falar como o governador
Claudio Lembo) os negros e mulatos não teriam temperamento estável para as
grandes decisões. Esse julgamento persistiu até a Copa de 1958. Na excursão
prévia que a seleção de 58 fizera à Europa, os dirigentes concluíram que os
negros e mestiços brasileiros eram muito bons de bola, mas psicologicamente
frágeis, além de não saberem usar corretamente os talheres à mesa. Assim, se
em cada posição o escrete pudesse usar um branco ao invés de um negro ou de
um mulato as coisas iriam melhor. A exceção era Didi, porque para este não
havia substituto. Até que, afinal, no jogo contra a Rússia, por imposição do
elenco, entraram Pelé e Garrincha, e o resto é História. No último jogo, o
grande Djalma Santos ocupou a lateral-direita e foi considerado o melhor da
posição, apesar de só ter atuado contra a Suécia. Aquele foi o primeiro
esquadrão multirracial a levantar uma Copa do Mundo. E serviu de modelo para
os outros.

Dida, algumas gerações depois, já chegou com o caminho aplainado. Mas, mesmo
as outras seleções, que espelhavam muito bem a nossa população multiétnica,
sempre haviam reservado o gol aos brancos. Como se deles fosse privativa a
função de defender a meta, que os locutores da antiga chamavam de “último
reduto”. Cabia a eles a salvação da pátria. Gilmar vestiu a camisa 1 em
1958, 1962 e 1966 (Manga, o reserva negro, jogou apenas contra Portugal),
Félix em 1970, Leão em 1974 e 1978, Valdir Perez em 1982, Carlos em 1986,
Taffarel em 1990, 1994 e 1998, Marcos em 2002. Portanto, foi muito bonito
que, nesse seu momento de realização profissional, Dida tenha se lembrado
daquele velho goleiro injustiçado.

ENVIADO ESPECIAL

Como está todo mundo em Weggis, ou com a cabeça em Weggis, sinto-me um pouco
como uma espécie de enviado especial ao Brasil. Assim, cabe lembrar que
existe um Campeonato Brasileiro em andamento. E que este campeonato
apresentou algumas partidas interessantes, como a vitória do Santos sobre o
desfalcado Corinthians, em jogo de técnica fraca, mas momentos de emoção. Os
resultados do Fla-Flu e de Inter x Cruzeiro deixaram tudo embolado, com o
Fluminense na ponta, mas ao alcance de Internacional, Cruzeiro, Santos e São
Paulo. Eles não perderam o contato com o líder, como se diz na Fórmula 1. Já
a situação do Corinthians começou a se complicar, pois ficou a 10 pontos do
primeiro colocado. E preocupante, para valer, é a do Palmeiras, que perdeu
mais uma. Tite deve fazer como quando pegou o Corinthians em crise: fechar o time e fazê-lo parar de perder. Tem que melhorar o ânimo da tropa, e por isso a parada da Copa será muito benéfica para o Verdão. Mas sem contratações não há milagre possível.

30/5/2006

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: