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Onde foi parar a antiga paixão?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h56

25/9/2007

Num dos episódios de Boleiros, de Ugo Giorgetti, o treinador interpretado
por Lima Duarte se vira para uma dondoca (Marisa Orth) e diz: “A senhora não
sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!” A cena é muito engraçada porque
Marisa vive a gostosona que está no hotel a fim de dormir com o melhor
jogador do Palestra, talvez prejudicando seu desempenho no dia seguinte. Mas
fica mais engraçada ainda porque Lima, com aquela cara séria e irônica ao
mesmo tempo, quer lembrar à madame a grandeza óbvia daquele clássico, o jogo
dos jogos, o embate de maior importância nesta nossa velha São Paulo.
Todos nós, que nos formamos no futebol paulista, sabemos disso. Podemos não
torcer para qualquer um dos dois (ou torcer contra os dois), mas respeitamos
a rivalidade ancestral, cozinhada ao longo de décadas e destilada em
partidas memoráveis, lances geniais, demonstrações de raça e gols de
antologia. É um pouco como o Fla-Flu, o clássico cantado por Nelson
Rodrigues como sendo anterior ao Gênesis. Ramos da mesma árvore, Nelson
Rodrigues dizia também de Flamengo e Fluminense que eram os como os Irmãos
Karamazov do futebol, fraternidade de origem comum e tingida de ódios e
ressentimentos, o que só fazia apimentar cada novo encontro entre eles.
Há uma lenda urbana aqui em São Paulo que fala da origem comum de Palmeiras
e Corinthians. Não sei se é verdadeira, desconfio que não, mas que importa?
Irmãos ou não, a rivalidade entre os dois clubes é histórica e data de 90
anos, pontuada por fatos notáveis. Para ficar apenas nos tempos mais
recentes: quem não se lembra, por exemplo, das batalhas pelas Libertadores
de 1999 e 2000, ambas favoráveis ao Palestra, decididas na agonia dos
pênaltis? Ou do então corintiano Viola, imitando um porco depois de marcar
um gol, insulto que depois se tornou mascote e símbolo do Palmeiras? Ou das
embaixadinhas debochadas de Edílson, que geraram antológico quebra-pau?
Enfim, Palmeiras e Corinthians fazem parte da nossa história futebolística e
naquilo que ela tem de melhor, de mais intenso e saboroso.
Por isso mesmo não deixa de ser triste ver um clássico desse porte ser
jogado como foi no domingo. Seria redundância dizer que faltou técnica, pois
esta é qualidade quase abolida no atual futebol no Brasil. Deve-se dizer que
o Palmeiras fez a sua parte, dominando amplamente o jogo. E que, se alguma
técnica houve, ela se deve a Valdivia, em lances isolados, e a Felipe que,
com suas defesas, evitou desgraça maior para o Corinthians. Mas o pior,
nessas circunstâncias, não é nem a falta de técnica, mas a ausência de
emoção num clássico frio, assistido por apenas 18 mil pessoas no Morumbi.
Onde foi parar a paixão de outrora?
Sabemos que clubes podem sobreviver anos a fio em filas que parecem
intermináveis, e o próprio Corinthians é a maior prova disso. Nos tempos de
vacas magras, quando o time era muito ruim, a própria torcida o ironizava,
apelidando-o de “Faz-me Rir”, título do samba em moda na época. Mas não
deixava de ir ao estádio. Dizem que a torcida cresceu nos anos de desgraça.
Hoje nem isso se vê. E por quê? Porque é mais fácil sobreviver à adversidade
do que a uma associação escusa, dessas que sugam a alma de um clube. O
Corinthians vai beber até a última gota de fel dessa parceria malfadada.
Exige uma refundação, em regra, que honre a sua própria tradição.

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