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Os clubes e os “professores”

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h26

19/2/2008

Vamos fazer um exercício de ficção e supor que amanhã Muricy Ramalho deixe o
São Paulo. Digamos que recebeu uma proposta irrecusável do “mundo árabe”,
como eles costumam dizer, e tenha resolvido se mandar. O clube seria
afetado? Certamente. Nenhuma instituição perde um profissional dessa
categoria sem nada sentir. Nós mesmos talvez tivéssemos saudades do
engraçado mau humor de Muricy, quem pode saber? Mas alguém aí imagina que o
São Paulo sentiria o chão tremer sob os pés sem a proteção do técnico? Sua
ausência provocaria um tsunami no Cícero Pompeu de Toledo? Veríamos os
cavaleiros do apocalipse soltos pelas bandas do Morumbi? Choro e ranger de
dentes? Presságios de fim de mundo?
Claro que não. Passada a primeira surpresa, a direção nomearia um interino e
começaria a procurar substituto. Muricy teria esvaziado o armário e levado
seus pertences; se despediria do elenco e da direção com protestos de estima
recíprocos. O resto ficaria por ali. A estrutura permaneceria intocada e o
São Paulo daria continuidade à vida, sem maiores sobressaltos. E é assim que
se faz. Nenhum profissional, por melhor que seja, é maior do que a
instituição que o abriga.
Como exemplo contrário, vejam o que aconteceu com o Santos. Após a saída de
Luxemburgo, o clube parece que entrou em colapso e ninguém mais se entende
na Vila Belmiro. Não é que o Santos enfrente dificuldades, como qualquer um
teria pela perda de profissional de gabarito. Entrou em queda livre e não
consegue se firmar. Aliás, quanto mais tenta se acertar, pior fica. Por que
isso acontece? Por vários motivos, sem dúvida. Mas o principal deles é que,
quando saiu Luxemburgo, saiu com ele uma equipe inteira e toda uma filosofia
de trabalho. Até aparelhos de fisioterapia foram levados. Não foi um
profissional que deu adeus. Foi um planejamento que ruiu. Foi-se a
“estrutura Luxemburgo” e não havia nada para colocar no lugar. Agora,
pergunto eu: como é possível a um clube dessa grandeza – o clube de Pelé,
ora! – depender a esse ponto de um único profissional e sua equipe? Não é
passar um atestado de incompetência à própria organização e método de
funcionamento?
Acho que o caso do Santos deveria ser estudado por outros clubes, em
especial pelo Palmeiras, atualmente sob comando de Luxemburgo. Os resultados
da competente atuação de Luxa começam a aparecer, como na vitória de 4 a 0
sobre o Juventus. Os palmeirenses têm justos motivos para euforia, pois o
time dá mostras de estar se tornando um todo coerente, com princípio, meio e
fim. Deverá trazer alegrias sob a forma de bons jogos, espetáculo, vitória e
títulos.
Paradoxalmente, é nesse ponto alto, no momento mesmo do otimismo, que a
direção do Palmeiras deveria já começar a pensar na futura era
pós-Luxemburgo. Mais dia menos dia ele sai, como é da natureza dessa
atividade chamada futebol e que se tornou tão instável. O que não pode
acontecer é que a sua saída signifique a ruína de toda uma organização, como
aconteceu no Santos. Está mais do que na hora de os clubes se fortalecerem e
montarem estruturas mais permanentes e menos sujeitas aos caprichos dos
professores. Eles são transitórios, os clubes são definitivos. Desse modo
talvez houvesse menos crises artificiais (mas nem por isso menos dolorosas)
como essa que ameaça levar o Santos à Segunda Divisão do Paulista.

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