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Os deuses da montanha

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h47

28/8/2007

Se Náutico e América tivessem endurecido diante de São Paulo e Santos,
estaríamos agora dizendo que não tem mais bobo no futebol. Uma de tantas
frases feitas que usamos para decifrar o indecifrável do futebol. O fato é
que Náutico e América foram goleados e assim (parece) que chegamos a uma
fase da competição em que algumas diferenças começam a se estabilizar. É
possível que o campeonato, daqui em diante, exiba pouco mais de
racionalidade, se os times não forem mais desfigurados até o fechamento da
maldita janela européia de contratações.
Sempre que ouço falar nessa tal janela, lembro daqueles filmes de
antigamente sobre povos primitivos que mandam ao sacrifício não sei quantas
virgens para apaziguar a cólera dos deuses, em geral um vulcão fumegante. Os
deuses, claro, são eles, os clubes do mundo rico, e os nossos jogadores são
as virgens, que, ao contrário daquelas do cinema, seguem todas rebolativas e
satisfeitas ao encontro dos senhores da montanha. Nós, mortais, ficamos só
assistindo, trêmulos, torcendo para que o apetite dos deuses não seja tanto
que venham devorar a nós, além das virgens.
Assim, se não for mais desfigurado pelo deus mercado, o São Paulo deverá
seguir em trajetória inabalável de time difícil de ser derrotado, defesa
quase intransponível e que sempre encontra um golzinho na frente para
garantir os três pontos. Outro, não tão constante, mas que parece mais
próximo da solidez do que da inconstância, é o Palmeiras, que obteve ótimo
resultado fora ao ganhar do Figueirense. São Paulo e Palmeiras chegam
embalados para o clássico de amanhã, que deve ser um dos melhores do ano.
O que apimenta mais esse jogo é a disparada do Cruzeiro, que pode encostar,
em caso de fracasso do tricolor, pois tem um jogo a menos. O Cruzeiro
substituiu o Botafogo no papel de time que melhor representa a vocação
brasileira de jogar, isto é, ofensiva, ao contrário do que prega o técnico
Mário Sérgio. O Cruzeiro tem o melhor ataque da competição, 47 gols a favor,
contra 29 do São Paulo. Acontece que o time mineiro levou 35 gols, e o
paulista apenas 7. Sete (!) gols em 21 jogos. Não é de espantar? Não à toa
muitos são-paulinos já se converteram ao culto da defesa, como se tivessem
nascido na Itália e expressassem, desde meninos, o desejo de ser um Baresi,
um Materazzi ou um Cannavaro.
Já o Botafogo, depois de amargar o declínio após a acusação de doping de
Dodô e o afastamento de Zé Roberto, voltou a vencer e a jogar de modo
convincente, derrotando o Atlético-MG em pleno Mineirão. Retomou o rumo, ou
vai dar razão a quem sempre viu nele o protótipo do cavalo paraguaio? E,
para ninguém me acusar de esquecer o Santos, registro que, ao que parece,
Luxemburgo conseguiu reestruturar uma vez mais a sua equipe, esse time que
parece brinquedo de criança, sendo montado e desmontado constantemente, sem
jamais chegar a ficar pronto. Pela primeira vez em muito tempo dispõe de um
centroavante que resolve e voltou a ter qualidade no meio-campo com a
chegada de Petkovic; Kléber continua arrebentando na ala e Maldonado está de
volta, dando consistência ao seu setor, ao lado de Rodrigo Souto. Está aí um
bom time; se não começar a ser desmanchado de novo.
Enfim, podemos esperar um segundo turno dos mais interessantes, com emoção e
talvez alguma técnica. Isso, se os deuses da montanha fumegante forem
clementes.

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