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Os deuses da montanha

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h17

Se Náutico e América tivessem endurecido diante de São Paulo e Santos, estaríamos agora dizendo que não tem mais bobo no futebol. Uma de tantas frases feitas que usamos para decifrar o indecifrável do futebol. O fato é que Náutico e América foram goleados e assim (parece) que chegamos a uma fase da competição em que algumas diferenças começam a se estabilizar. É possível que o campeonato, daqui em diante, exiba um pouco mais de racionalidade, isso se os times não forem mais desfigurados até o fechamento da maldita “janela européia” de contratações.
Sempre que ouço falar nessa tal janela européia, lembro daqueles filmes de antigamente sobre povos primitivos que mandam ao sacrifício não sei quantas virgens para apaziguar a cólera dos deuses, em geral um vulcão fumegante. Os deuses, claro, são eles, os clubes do mundo rico, e os nossos jogadores são as virgens, que, ao contrário daquelas do cinema, seguem todas rebolativas e satisfeitas ao encontro dos senhores da montanha. Nós, mortais, ficamos só assistindo, trêmulos, torcendo para que o apetite dos deuses não seja tanto que venham devorar a nós, além das virgens.
Assim, se não for mais desfigurado pelo deus mercado, o São Paulo deverá seguir em trajetória inabalável de time difícil de ser derrotado, defesa quase intransponível e que sempre encontra um golzinho lá na frente para garantir os três pontos. Outro, não tão constante, mas que parece mais próximo da solidez do que da inconstância, é o Palmeiras, que obteve ótimo resultado ganhando do Figueirense na casa do adversário. São Paulo e Palmeiras, dessa forma, chegam embalados para o clássico de quarta-feira, que deve ser um dos melhores do ano.
O que apimenta ainda mais esse jogo é a disparada do Cruzeiro, que vem agora nos calcanhares do tricolor, e pode encostar ainda mais em caso de fracasso do tricolor, pois tem um jogo a menos. O Cruzeiro substituiu o Botafogo no papel de time que melhor representa a vocação brasileira de jogar, isto é, ofensiva, ao contrário do que prega o técnico Mário Sérgio. O Cruzeiro tem o melhor ataque da competição, 47 gols a favor, contra apenas 29 do São Paulo. Acontece que o time mineiro levou 35 gols, e o paulista apenas 7. Sete (!) gols em 21 jogos. Não é de espantar? Não à toa muitos são-paulinos já se converteram ao culto da defesa, como se tivessem nascido na Itália e expressassem, desde meninos, o desejo de ser um Baresi, um Materazzi ou um Cannavaro.
Já o Botafogo, depois de amargar o declínio após a acusação de doping de Dodô e o afastamento de Zé Roberto, voltou a vencer e a jogar de modo convincente, derrotando o Atlético-MG em pleno Mineirão. Retomou o rumo, ou vai dar razão a quem sempre viu nele o protótipo do cavalo paraguaio?
E, para ninguém me acusar de esquecer o Santos, registro que, ao que parece, Luxemburgo conseguiu reestruturar uma vez mais a sua equipe, esse time que parece brinquendo de criança, sendo montado e desmontado constantentemente, sem jamais chegar a ficar pronto. Pela primeira vez em muito tempo dispõe de um centro-avante que resolve e voltou a ter qualidade no meio-campo com a chegada de Petkovic; Kléber continua arrebentando na ala e Maldonado está de volta, dando consistência ao seu setor, ao lado de Rodrigo Souto. Está aí um bom time; se não começar a ser desmanchado de novo.
Enfim, podemos esperar um segundo turno dos mais interessantes, com emoção e talvez alguma técnica. Isso, se os deuses da montanha fumegante forem clementes.

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