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Os donos da bola

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h15

18/12/2007

Só deu Brasil na premiação da Fifa: Kaká, Marta e Buru chegaram ao topo de
suas categorias. E, sim, Pelé, que havia sido ignorado na cerimônia da
confirmação do Brasil como sede da Copa de 2014, recebeu prêmio
“presidencial” de Joseph Blatter e depois entregou o troféu de melhor do
mundo a Kaká. Afinal, Pelé é a nossa maior personalidade esportiva na
opinião de qualquer cidadão, menos na do presidente da CBF.
Enfim, na categoria principal deu Kaká, como era esperado. Mesmo que ele não
tivesse jogado nada na partida contra o Boca Juniors seria eleito o melhor
do mundo. O que é justo, pois vale o conjunto da obra e o jogador do Milan
está em fase “iluminada”, como se costuma dizer. Agora, o fato de ter
arrebentando na final do Mundial de Clubes dá ainda mais peso a essa
decisão, que pouca gente coloca em dúvida.
A escolha tem sua peculiaridade. Kaká é aquele tipo de atleta que os
italianos chamam de “uomo squadra”, que joga para ao time, para o resultado
buscado, sem uma firula, sem necessidade de chamar a atenção para si.
Economia de recursos, frugalidade no trato com a bola, nem um toque a mais,
nem um desvio desnecessário, sempre na vertical rumo ao gol – se bem me
lembro, Kaká já tinha essas qualidades no tempo em que era vaiado no São
Paulo. Na Europa, as aprimorou. Depurou o que já tinha, jogou fora o excesso
e ficou com o simples. Graças a tudo isso, o garoto revelado no Morumbi logo
se tornou unanimidade no futebol europeu, para o qual parece ter nascido.
Disse “na Europa”, mas deveria ter precisado que isso aconteceu na Itália,
país que tem a sua especificidade. Sim, por mais que o futebol tenha se
globalizado, é possível ainda detectar algumas qualidades específicas de
cada país. Pelo menos de alguns países. A Itália é um deles e, não por
acaso, foi campeã do mundo no ano passado jogando em seu estilo. Um estilo
parcimonioso, econômico, pão-duro mesmo. Quem quiser ver espetáculo, vá ao
balé. A Itália entra em campo para ganhar. É o modelo do futebol pragmático.
Essa é um antigo tema de debate em botequim: futebol arte ou futebol de
resultado? Lembro-me de 1982, quando coube à “medíocre” Itália de Paolo
Rossi a ingrata tarefa de enfrentar o Brasil de Falcão, Zico, Sócrates, &
Cia, com o resultado que conhecemos. Diziam que a Itália, terra de músicos,
pintores e escultores incomparáveis não merecia um futebol como aquele, sem
qualquer complacência com a beleza. São opiniões.
No domingo, depois do jogo, ouvi uma interessante entrevista com José
Altafini, o Mazzola, que jogou pelo Palmeiras, seleção brasileira (de 1958)
e depois foi continuar carreira na Itália, no Milan, justamente. Mora em
Turim e trabalha como comentarista esportivo. Acho que foi Wanderlei
Nogueira, na Jovem Pan, quem perguntou a Mazzola por que motivo o futebol
italiano, atual campeão do mundo de seleções, e agora interclubes, não
conseguia convencer totalmente a opinião pública mundial. Mazzola disse que
eles estavam habituados a isso, que o futebol italiano era duro e sem
concessões. “Na Espanha são mais festivos”, disse ele, com uma ponta de
ironia, imagino. O sentido das palavras, para quem conhece a península, era
claro. Deixe que os outros falem e brinquem. Enquanto isso, nós vamos
ganhando. Jogando bonito ou feio, vamos ganhando. Esse é o significado
daquilo que eles definem como o “vero calcio ”. O verdadeiro futebol.
E essa é a Itália de Kaká, o país onde seu jogo floresceu e o conduziu ao
posto de melhor do mundo. Foram suas atuações pelo Milan que o levaram até
lá e não, certamente, os jogos que fez pela seleção brasileira.

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