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Os ex-Meninos da Vila *

Luiz Zanin Oricchio

20 de maio de 2014 | 14h56

Dois ex-Meninos da Vila brilharam este fim de semana. Paulo Henrique Ganso marcou os dois gols sobre o Flamengo, em pleno Maracanã. André também fez os dois na vitória do Atlético Mineiro sobre o Santos, na Arena Pantanal, em Cuiabá.

Há semelhanças entre os dois casos? Em termos. Ganso e André surgiram naquele mesmo time de 2010 do Santos Futebol Clube. Junto com Neymar e outros garotos, Ganso e André encantaram o Brasil. O Santos daquele ano era um daqueles times especiais que, pela irreverência e futebol brilhante, chamavam a atenção não apenas dos seus torcedores, mas de todos os que gostam do futebol bem jogado. Ninguém que apreciava o jogo da bola ficou indiferente a esse time de garotos.

Havia ali o embrião de um time genial, comandado por um técnico pouco burocrático, Dorival Jr., à época adepto do futebol ofensivo que estaria inscrito no DNA da Vila Belmiro. É bem possível que se houvessem dado a esse time tempo para se estabilizar e se decantar ao longo dos anos, ele talvez tivesse chegado perto daquele famoso esquadrão dos anos 1960, o mitológico Santos de Pelé, formado pelo Rei e por um elenco de jogadores de altíssimo nível como Gylmar, Zito, Coutinho, Pepe, Dorval, Mengálvio e outras feras.

A história do futebol brasileiro hoje é outra e o time que encantou em 2010 e conquistou a Libertadores em 2011, em 2012 já não existia. Mesmo em 2011, apesar de sua eficácia, não possuía o encanto do incipiente time de garotos de 2010. Enfim, desmantelou-se, pois tudo se desmancha no ar neste antigo país do futebol. Grandes times precisam de tempo para se formar, amadurecer e aperfeiçoar-se. Tempo é matéria-prima que já não temos.

De modo que tanto André como Ganso logo foram baixar em outras freguesias. André saiu para a Europa onde, parece, não foi feliz, nem muito amado. Chegou a voltar ao Santos, mas seu futebol não era o mesmo. Ou assim parecia. Foi parar no Atlético Mineiro, também contestado, mas domingo virou o herói da virada sobre seu ex-clube. Não sabemos se foi um espasmo passageiro ou vai reencontrar seu futebol de 2010. Mas qual era esse futebol?

Ganso foi outro que ressurgiu no domingo. Não apenas porque marcou duas vezes, ele que está acostumado a vibrar mais com os passes do que a comemorar gols, mas porque mostrou presença e personalidade. Ganso era, ao lado de Neymar, a grande promessa daquela versão dos Meninos da Vila. Formava, com Neymar, a dupla emblemática que era quase como a ressurreição do duo Diego e Robinho, surgido na geração anterior dos Meninos da Vila, a de 2002. Depois se machucou, foi operado, ficou no estaleiro, sarou, brigou com o clube, saiu. Foi jogar no São Paulo, onde nunca repetiu atuações que vislumbravam nele a solução para preencher o vazio de ideias no meio de campo do futebol brasileiro. Domingo, teve lampejos do que um dia foi.

Costuma-se dizer que o jogador nunca se esquece do que sabe fazer. Talvez nenhum de nós esqueça de nossos eventuais talentos, mas a verdade, e sabemos disso pela experiência, é que, em determinadas circunstâncias, aplicamos melhor o que sabemos do que em outras. Tenho a impressão de que com o futebol se dá o mesmo. Houve, naquele time de 2010, uma congruência feliz de circunstâncias, um raro encontro em que os talentos nascentes somavam-se uns aos outros e multiplicavam-se. Como resultado , o todo era maior que a soma das partes, e os indivíduos brilhavam num conjunto favorável.

Talvez André fosse apenas um centroavante oportunista, com faro de gol, mas, como estava num time em que a bola chegava a toda hora em boas condições de marcar, seu retrospecto nos pareça tão bom. Em Ganso, o que espantava não era tanto a precisão dos passes, o seu controle de bola raro e elegante, mas a capacidade de descobrir espaços inexistentes e colocar a bola no ponto futuro ideal para seus companheiros. Jogava e pensava no vazio, o que é o mais difícil. Ainda faz isso, mas de maneira mais espaçada. O fato é que não surgiu jogador igual ao que ele foi em 2010.

Que ambos se reencontrem.

 * Coluna publicada na seção de Esportes do Estadão

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