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Os jogos e os dias especiais

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h42

7/8/2007

Botafogo x São Paulo será o jogo mais importante do campeonato, pelo menos
até agora. Não apenas porque decide a liderança e o título – simbólico – de
campeão do primeiro turno, mas porque põe em confronto duas filosofias de
jogo opostas, cujas diferenças se expressam em números. O Botafogo tem 35
gols marcados contra apenas 20 do São Paulo. Em compensação, o Botafogo
levou 21 gols e o São Paulo somente 7. Um tem um ataque eficaz, mas leva
muitos gols. O outro marca pouco, mas quase não toma. Feitas as contas,
fica-se com o seguinte: o saldo de gols é praticamente o mesmo – 14 para o
Botafogo, 13 para o São Paulo. Ambos chegam ao mesmo lugar, mas por caminhos
diversos.
Pode-se dizer que o Botafogo é aquele que mais agrada ao torcedor
brasileiro, por seu jogo bonito. Eu diria que, no estágio atual de penúria
do nosso futebol, o Botafogo é a exceção à regra com seu jogo plástico,
ofensivo, fluente. Tem jogadores excepcionais, grandes craques? Não.
Dispõe de bons jogadores, como Zé Roberto e Dodô, entrosados num todo
coerente. Mérito do Cuca, que fez desse conjunto o time mais redondo do
campeonato.
Já o São Paulo parece ter se estabilizado naquela figura que Emerson Leão,
no tempo em que o treinava, definia como “time cascudo”. O São Paulo é
encorpado, forte a partir da defesa, começando com um grande goleiro, uma
boa zaga e um volante, Josué, que funciona como âncora da equipe. Tem
conseguido, como nenhum outro clube, reconstruir-se e manter-se à tona nesse
frenético entra-e-sai de jogadores em que se transformou o Brasil da Lei
Pelé. Mérito do Muricy, que, trabalhando sobre a boa base anterior,
estruturou esse time duro e difícil de ser batido.
Para quem não torce por nenhum dos dois, esse jogo é um tira-teima dos mais
interessantes – embate entre o futebol leve do Botafogo e o futebol sólido
do São Paulo. São dois estilos diferentes e – vamos combinar – nada mais
gostoso do que assistir a uma partida na qual concepções de futebol
divergentes se enfrentam. Caso seja bem disputado, pode ser um refresco em
meio à mesmice que nos entorpece e à qual vamos nos habituando com
dificuldade.
Algum idiota da objetividade irá dizer que em campeonato de pontos corridos
todos os jogos se equivalem, já que a soma final é o que importa e cada
partida vale três pontos. Verdade. Ou melhor, meia-verdade, que é uma das
figuras mais enganadoras da mentira. Porque no futebol, como na vida, cada
dia é um dia, mas existem uns mais importantes que os outros. Toda manhã
você acorda, toma café, faz a barba (quem é de barba) e vai para o
trabalho. Mas, da mesma forma que existe aquele jogo especial, existe
também o dia diferente, aquele em que você faz o teste para o emprego que
pode mudar a sua vida ou se encontra com aquela pessoa muito especial e
ainda reticente. Quem dirá que um dia desses é igual a todos os outros do
ano, e de todos os anos que você tem para viver?
Assim é no futebol. Quem ganhar amanhã, pode até não ter vencido o
campeonato, mas já sai na frente na luta pelo troféu. Com moral elevado e
certeza de que a sua concepção de jogo é a boa, e não a do adversário. Quem
vencer, sai não apenas com três pontos, mas com sentimento de que está com
a razão – e isso não tem preço. E se der empate? Bom, nesse caso, a dúvida
persiste. O que, pensando bem, talvez seja o melhor para todos os outros
interessados.

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