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Os meios e os fins

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h47

A finalidade do futebol é gerar receitas para o clube. As palavras são do dirigente Mário Gobbi, do Corinthians, e para mim esta é a frase da semana, talvez do ano. Se ele fosse um cirurgião, diria que a finalidade da equipe médica é gerar receitas para o hospital. Se fosse um educador, diria que a finalidade do corpo docente é gerar receitas para a escola. E assim por diante. O que me encanta na frase é a sua sinceridade brutal. Sua ausência de qualquer pudor ou prurido, sua conformidade absoluta aos tempos que vivemos.

Pensei nelas ao assistir Corinthians e Palmeiras, o clássico dos clássicos da cidade de São Paulo, disputado no Prudentão – em Presidente Prudente obviamente, cidade distante 560 quilômetros da capital. Sei que o mandante deve ter obtido vantagens financeiras para jogar no interior, recebendo um público que caberia com folgas no Pacaembu, já que não deseja o Morumbi como é de seu direito. Mas, afinal, é o derby da cidade de São Paulo, e talvez fosse interessante respeitar essa tradição. Mesmo porque o mundo, pelo que dá mostras, não vai acabar amanhã e então seria preciso pensar no futuro mais distante e não apenas no imediato. Para ser claro: pensar para daqui a dez, ou 20 anos e não apenas na semana que vem ou no fim do mês.

Respeitar a tradição não é apenas coisa de gente velha. Significa, já que a linguagem é essa, preservar o retorno financeiro de amanhã. Cultivar a rivalidade de um clássico para que o interesse pelo jogo se transmita às gerações seguintes. Um Corinthians x Palmeiras em Presidente Prudente parece tão bizarro quanto um Internazionale x Milan em, digamos, Nápoles, que é uma linda cidade mas nada tem a ver com o derby de Milão. Ou um Sport e Náutico em Caruaru, por exemplo. Não tem sentido. Nada disso faz sentido, por mais que, conforme acreditem alguns dirigentes, seja aprovado com louvor pela lógica econômica.

Claro que não nasci ontem e nem sou romântico a ponto de achar que as coisas funcionem apenas na base do sentimento ou do amor. Sei muito bem que os hospitais precisam comprar equipamentos cada vez mais caros e pagar os salários dos médicos e da enfermagem. Sei que as escolas não vivem apenas de cuspe e giz mas precisam também de laboratórios e, pelo menos em tese, deveriam pagar para manter os melhores professores. Da mesma forma, sei muito bem que o futebol está inflacionado, com os custos cada vez maiores e, portanto, precisa de receita para funcionar. Até aí tudo bem.

Só não concordo muito é com a inversão entre meios e fins. Parceiros deveriam ajudar os times e não transformá-los em barrigas de aluguel – trazem o jogador e, se ele vai bem, o revendem logo em seguida, como foi o caso de Keirrison no Palmeiras, entre tantos outros. Se os clubes pretendem explorar o espetáculo, até para vendê-lo mais caro, deveriam se preocupar em melhorá-lo. E não é vendendo os bons e ficando com os ruins que isso vai acontecer. Por fim, se os cartolas querem garantir receita, deveriam prestigiar quem paga, ou seja, o torcedor. Afinal é ele quem vai ao campo, compra camisa, vê TV e assina o pay per view. Um dia ele pode se cansar.

Não sei em que tudo isso vai dar, e não estou falando apenas em futebol. Mas, ao contrário do dirigente corintiano, acho que a finalidade do futebol é o próprio futebol: trazer títulos, proporcionar bons jogos e emoção à torcida. O resto, para mim, é conversa. Mas devo estar enganado, não é mesmo?

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