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Os números frios e a beleza

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h57

Nesta rodada, tivemos uma acomodação de números. Pelo menos nos primeiros lugares. O líder, Corinthians, marca passo enquanto outros concorrentes, como Vasco, São Paulo e Flamengo recusam-se a se aproximar demais. Poderiam tê-lo feito, mas, a exemplo do próprio líder, tropeçaram. Conclusão: na parte de cima, o campeonato achatou-se, com diferenças mínimas entre as posições.
Seria ocasião (mais uma) para dizer que o Campeonato Brasileiro, diferentemente de outros mais badalados do mundo do futebol, caracteriza-se pelo equilíbrio. São várias as equipes que podem sagrar-se campeãs, são várias as grandes equipes que podem ser rebaixadas: basta ver como Santos, Grêmio, Atlético-PR e Atlético-MG continuam rondando a casinha da infelicidade, ou nela enterrados até a alma.
A uma rodada do final do primeiro turno, portanto, tudo o que se pode dizer é que, provavelmente, teremos emoção nas definições na parte de baixo como na de cima da tabela. Nenhum clube ainda disparou, como o Corinthians ameaçara fazer. E nenhum ainda se pode considerar condenado em definitivo à degola. Há muita coisa a ser jogada. Como se previa, aliás, dentro daquilo que o futebol possa ter de previsível, o que é muito pouco.
E isso é uma sorte, porque o melhor do futebol vem mesmo é do imprevisível, daquilo que escapa à racionalidade e à prancheta, mesmo que seja a do Joel. Por exemplo, nesta rodada, que teve alguns bons jogos, mas nenhum excepcional, o fã do futebol foi brindado com dois gols raros – e lindos. Refiro-me, é claro, ao gol de Dagoberto no clássico entre São Paulo e Palmeiras, e ao de Leandro Damião em Inter x Flamengo.
O primeiro foi uma pintura clássica, Com um toquinho sutil, Dagoberto livrou-se de Leandro Amaro e, vendo que Marcos se adiantara para fechar o ângulo, deu um tapa na bola e encobriu o goleiro. Tão sutil e pouco forte que ela pingou antes de entrar no gol, criando aquela sensação incrível de suspense, que deixa as torcidas (ambas) sem fôlego. O de Leandro Damião foi de bicicleta, a jogada se não inventada pelo menos consagrada por Leônidas da Silva. Bicicleta verdadeira, com pedalada e tudo, acrobática. Outra pintura, esta barroca, de destreza atlética.
Eu que, por força do ofício acabo por ver mais jogos do que seria recomendável, sinto-me recompensado por lances assim. São eles que redimem 90 e tantos minutos de partida às vezes burocrática. São lampejos de poesia que resgatam a prosa cheia de lugares-comuns de que é feita a maior parte dos jogos.
Vemos futebol por muitos motivos. Por hábito, ou porque gostamos do esporte, ou torcemos por nosso time, por tédio, ou porque não temos nada melhor para fazer naquele momento, etc. Mas, suspeito que vejamos um jogo à espreita de um desses momentos mágicos. Não se pode prevê-los. Pudéssemos, perderiam sua eficácia poética. O melhor é que nos pegam de surpresa, num momento em que jamais esperaríamos por aquele desfecho. São eles que desarrumam o arrumado das defesas e nos tiram do eixo de torcedores acostumados a tudo.
Eles podem acontecer em qualquer lugar. Numa final de Copa do Mundo ou na mais “sórdida das peladas”, na expressão de Nelson Rodrigues. Nesta rodada, esses dois lances foram momentos de luz em nosso domingo escuro e chuvoso.
Através deles, o futebol se redime de tudo. Do comercialismo vulgar, da fala vazia dos cartolas, da arrogância dos agentes, do marketing abusivo, da publicidade onipresente, da corrupção e da brutalidade. Ressurge como arte, a nos lembrar sua grande vocação para a emoção e a beleza. Precisamos reter na memória esses lances isolados para lembrá-los a cada vez que nos sentimos desanimados diante da crua realidade dos fatos.

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