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Oval ou redonda?

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h12

PARIS – Pode haver desgraça maior que uma pessoa, distante da sua pátria e com sede de futebol, despencar em um país completamente obcecado pelo rúgbi? É que na França está sendo realizada a 6ª Copa do Mundo desse esporte em que 15 brutamontes de cada lado disputam a posse de uma estranha bola oval. Com essa introdução já dá para ver a minha intimidade com esse jogo, não é?
Jamais cheguei a ver uma partida inteira de rúgbi, bastando para minha paciência uma olhada naquela montanha de homens se esfalfando atrás da “ovalzinha”, correndo com ela nas mãos ou chutando-a para o alto, no que parecem ser tiros ao acaso. Dizem por aqui que as regras são complicadas, mas, para iniciantes, podem se resumir ao seguinte: o jogador avança para frente, o passe é dado para trás e só não vale agarrar o adversário pelo pescoço. Fora isso, pode tudo.
Acontece que, na França, onde o rúgbi é bem popular, também as atenções são dominadas pelo futebol. Afinal, o país é campeão do mundo (lembram de 1998?), vice na última Copa (no jogo da cabeçada de Zidane) e disputou há poucos dias um duríssimo 0 a 0 com a atual campeã, a Itália, pela classificação na Eurocopa. De neófita em futebol, a França não tem nada. E, em minha opinião, produziu o único craque, mas craque para valer, dos últimos anos, exatamente o grande Zinedine Zidane.
O futebol tem vocação monopolista. E, na França, isso não é diferente, embora nem de longe lembre a obsessão pela bola (redonda) que temos no Brasil ou na Itália. Daí a operação midiática de convencimento dos que desejam promover o rúgbi como esporte de massa. Respira-se rúgbi pelas ruas de Paris, os jornais só falam nisso, as pessoas comentam, os hotéis estão lotados de gente que veio de outras cidades, ou países, para ver os jogos.
O engraçado é que, segundo a História, ou a lenda, rúgbi e futebol são irmãos, como Caim e Abel. Aprendo que nas reuniões para fixar as regras do esporte com a bola, na Inglaterra de 1863, houve dissidência. Poderia pegar com a mão ou só com os pés? O que seria proibido e o que seria tolerado num jogo de intenso contato físico? Na falta de consenso, cada um foi para o seu lado. Estava estabelecido o grande cisma.
O esporte, na Inglaterra colonialista, era destinado à elite e tinha a função de preparar os jovens para os desafios da vida. Servia para desenvolver a força física, forjar a coragem e a honra de quem, no futuro, iria governar o mundo. Daí a questão dos valores (morais) associados tanto ao futebol quanto ao rúgbi. Estão na origem desses esportes e fazem parte do seu DNA.
Fazem mesmo? Segundo analistas franceses, depois de virar um mega-negócio, o futebol teria perdido essa aura antiga. O rúgbi, que tem menos de 20 anos de profissionalismo, ainda permitiria identificar valores não imediatamente associados ao dinheiro ou ao sucesso individual. Nele, conta a honra, o esforço de conjunto, a garra. É feio reclamar do árbitro e indigno fingir uma falta. Depois de um tranco violento, ao invés de gritar ou chorar o atleta tem de controlar a dor. Valores. De macho. Por isso, quem é torcedor fanático de rúgbi despreza o futebol. Como escreve um cronista da Nova Zelândia (favorita ao título), jogadores de futebol parecem “gatinhas mimadas e milionárias”.
Uma parte de razão eles podem ter. Mas, muito cá entre nós, existe coisa mais bonita do que uma bola de verdade, redonda, rolando de pé em pé, sobre um gramado perfeito?

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