As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Para entender a cabeça de José Mourinho

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h33

Ele é vaidoso, falastrão, egoico, desagradável. É também brilhante, inventivo, culto e carismático. José Mourinho, o nome da fera, é considerado o melhor técnico de futebol em atividade. Você pode nem se interessar muito por esse superstar dos estádios, um astro capaz de rivalizar com Messi, Cristiano Ronaldo e Kaká, mas, por certo, ficará encantado com a leitura de L”Alieno Mourinho (O Alienígena Mourinho), de Sandro Modeo. Nem precisa gostar muito de futebol, porque esse mix de perfil e ensaio filosófico do atual técnico do Real Madrid vai além do âmbito esportivo. Ao tentar desvendar o que passa no cérebro do mais cobiçado treinador europeu, Modeo traça uma curiosa história da cultura contemporânea, além de fornecer um belo exemplo do new football writing, a nova literatura europeia sobre o futebol – uma herdeira do new journalism.

Para entender o fenômeno Mourinho, Sandro Modeo (ensaísta de futebol e ciências, colaborador do italiano Corriere della Sera e do britânico Guardian), põe em funcionamento noções que vão da neurolinguística à literatura e à pintura, passando pela História de Portugal e as biografias do prestigiditador Houdini e Béla Guttmann, lendário técnico do Benfica. Tudo para entender por que esse medíocre jogador da série B lusitana se transformou em monstro sagrado do riquíssimo futebol europeu.

Se, na vida, o que vale é o resultado, o currículo de Mourinho fala por si. Conhecido como o Special One, Mourinho conseguiu dar uma inédita Copa dos Campeões ao Porto, equipe de porte médio em termos europeus, e levou a Internazionale de Milão à tríplice coroa na temporada 2009-2010 – venceu a Copa Itália, o Campeonato Italiano e a Champions League, que o clube não conquistava havia 45 anos. Em seguida, incompatibilizado com o meio futebolístico italiano, Mourinho colocou seu talento à disposição do mitológico Real Madrid, equipe de galácticos em busca de mais um título de campeão europeu. Se conseguir a façanha, Mourinho terá sido o primeiro técnico a ganhar o principal campeonato de clubes do mundo por três equipes diferentes.

Modeo respeita o sucesso, mas tenta escavar além do êxito pessoal os sinais que o levam à compreensão de Mourinho. Para isso, busca suas raízes lusitanas. Mourinho nasceu em 1963, em Setúbal, a 50 quilômetros de Lisboa, em família milionária, dona de uma fábrica de sardinhas em lata nacionalizada pela Revolução dos Cravos. Filho de pai goleiro e depois treinador. Estudante de educação física e leitor voraz. Estudioso apaixonado de táticas e estratégias do futebol, mas pouquíssimo afeito à especialização cega. Tanto assim que uma de suas frases favoritas serve de subtítulo ao livro: “Quem só entende de futebol não entende nada, nem de futebol.”

As referências, que serviram ao técnico para se construir, servem a Modeo para compreendê-lo. Assim, o sistema de jogo de Mourinho “estruturado e aberto, robusto, mas plástico e adaptativo no sentido darwiniano do termo” é visto como resultado de seu estudo das neurociências. Não parece coincidência, ao autor, que Mourinho seja conterrâneo de um dos papas da matéria, Antonio Damásio. Nem que tenha ido buscar referências ou exemplos inspiradores até no rei português Dom Sebastião.

Esse tipo de escrita coloca o futebol no mesmo patamar de outras manifestações artísticas ou sociais. Mobiliza ferramentas do conhecimento e da sensibilidade para entendê-lo e, eventualmente, enriquecê-lo com essa compreensão. Melhora o jogo.

(Sabático, 25/9/10)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: