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Parabéns, futebol! *

Luiz Zanin Oricchio

29 de outubro de 2013 | 09h00

Perdão, amigos: não vou falar nem do empate entre Corinthians e Santos, nem da ascensão do São Paulo e nem mesmo da volta do Palmeiras à Primeira Divisão. Ou melhor, vou falar de tudo isso ao falar do futebol, que comemora este ano seu 150º aniversário.

Gostamos tanto desse jogo que achamos difícil pensar que ele um dia não existiu. Parece algo tão natural em nossas vidas que temos a impressão de que ele nasceu logo que os nossos ancestrais desceram das árvores ou arriscaram os primeiros passos fora da caverna. Não foi bem assim. Historiadores e antropólogos podem pesquisar jogos com a bola entre civilizações antigas, mas a verdade é que o futebol, tal e qual o conhecemos, foi criado na Inglaterra há exatos 150 anos, quando se estabeleceram suas regras básicas.

Quem for escrever hoje uma história desses 150 anos terá de enfrentar um desafio monumental. De entretenimento da elite britânica o futebol se tornou fenômeno mundial – o mais popular entre todos os esportes que se conhecem. A Fifa, entidade criada para disciplinar o jogo, tem hoje mais países afiliados que as Nações Unidas. De diversão e esporte benéfico para a saúde, o futebol se tornou formidável negócio mundial. Movimenta, segundo algumas fontes, até um trilhão (!) de dólares ao ano. Um Everest de dinheiro.

Esse hipotético historiador dos 150 anos de futebol terá de abrir espaço considerável para o Brasil, mesmo que seja um europeu de carteirinha, daqueles que, por instinto e convicção, acham que a vida começa e termina nos limites do Velho Mundo. Esse pesquisador eurocêntrico será obrigado a sair dos limites do seu continente para abrigar generosamente em sua obra um país que até hoje venceu cinco das 19 Copas do Mundo disputadas. O Brasil é o único país que disputou todas as Copas. Já fez bonito na de 1938, com craques como Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Perdeu o torneio que organizou, em 1950, mas assumiu a hegemonia mundial de 1958 a 1970, com uma falha em 1966, quando a Inglaterra venceu sua única Copa, em seu território.

De qualquer forma, 1958-1970 é a era de ouro do futebol brasileiro, com a ascensão de grandes craques a partir da campanha da Suécia, em especial Garrincha e Pelé. Esses dois gênios, nascidos pobres e anônimos, e depois levados ao estrelato, simbolizaram a possibilidade de o talento sobrepujar a força do dinheiro, da organização e mesmo da tradição. Não devemos esquecer – e nem o historiador do futebol poderá fazê-lo – que, em 1958, o Brasil era a força nova, um azarão que passava por cima do poderio das seleções europeias, em especial da máquina de gols francesa e do futebol “científico” da União Soviética.

Portanto, até agora, o Brasil é “o” país do futebol, se o termômetro for a Copa do Mundo. Entendo que a Copa seja uma escala de valores confiável, embora não absoluta. Foi criada mesmo para ser esse tira-teima universal sobre quem pratica melhor o jogo. Vista em retrospecto, mostrou durante muito tempo o equilíbrio e a alternância entre dois continentes – a Europa, onde o jogo foi criado, e a América do Sul, onde ele se ambientou e foi aperfeiçoado. Com a vitória da Espanha na África do Sul, a Europa tomou a dianteira, tendo agora dez dos 19 títulos mundiais e ficando a América do Sul com nove – Brasil (5), Argentina (2) e Uruguai (2).

O equilíbrio havia sido já rompido no plano econômico. Nesse gigantesco PIB do futebol, o Brasil entra com a magra fatia de 2%, sendo que a Inglaterra, sozinha, contribui com 30%. A desproporção brutal explica a sangria de jovens talentos brasileiros em direção ao exterior. O Brasil tem cinco títulos mundiais; em sua época de ouro inventou a beleza eficaz do futebol-arte e produziu Pelé, o maior gênio desse esporte em todos os tempos. Foi derrotado no plano econômico e o resultado é o que se conhece: o futebol-arte acabou por aqui, vemos nossos talentos nos clubes europeus pela TV a cabo e a seleção foi desnacionalizada. Com a tática da envergadura econômica, a Europa dominou o futebol-arte.

Em certos casos, passou até a praticá-lo dentro de campo.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

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