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Paulista ou paulistano?

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h31

Antes de o campeonato iniciar, poucos acreditavam que algum time do interior fosse chegar à final. Lembrávamos de casos anteriores (ano passado quando chegaram Baureri e São Caetano), mas, no fundo, todo mundo achava que lá estariam, para disputar a taça, os quatro de sempre. Pois bem, não será assim. Um – o Guará – já está nas semifinais. E, apesar de duas vagas ainda estarem em aberto, o cenário mais provável diz que outra ficará com a Ponte Preta.
Se der a lógica na última rodada, teremos a seguinte classificação, do primeiro ao quarto: Guaratinguetá, Palmeiras, São Paulo e Ponte Preta. Dois “grandes” de São Paulo, dois do interior do Estado. Melhor ainda, a Ponte, com sua tradição mais que centenária, e o Guará, time novo, fundado em 1998.
Claro que este “cenário” (jargão de economistas…) pode se alterar. O São Paulo pode perder para o Juventus; a Ponte pode tropeçar diante de um Santos desinteressado, o Barueri pode entrar, etc. Tudo pode e tudo ainda está aberto para quatro clubes. Mas essas alternativas são, no fundo, pouco prováveis, embora o futebol seja uma dessas atividades humanas destinadas a derrubar profetas de todos os matizes. Se tivesse que fazer uma aposta em dinheiro seria aquela com Guará em primeiro e a Ponte beliscando a última vaga. Caso aconteça isso mesmo, dois grandes da capital matam-se na semifinal e dois do interior fazem o mesmo. Conclusão: interior x capital na finalíssima.
Seria, em minha opinião, desfecho justo para um campeonato que saiu melhor do que a encomenda. Tecnicamente, não vimos grande coisa. Mas o futebol brasileiro, como se sabe, deixou de ser grande no plano interno. Então, é isso mesmo o que se poderia esperar: certo nivelamento entre equipes, o que torna compreensível que Guará e Ponte disputem o título contra clubes que, em tese, têm muito mais grana, torcida e conquistas, como São Paulo e Palmeiras.
É esse o retrato do futebol paulista que, por sua vez, espelha a realidade do futebol nacional. E, para que esse retrato seja nítido e justo, seria indispensável que os times do interior tenham o mando de campo em suas casas. Nada dessa maracutaia de trazer todos os jogos da decisão para a Capital. É, repito, de elementar justiça, que cada time jogue em seu estádio, seja ele na capital, no litoral ou no interior. Afinal, o campeonato é paulista e não paulistano. Ou não é? Com a palavra, a Federação que, não por acaso, se chama Paulista de Futebol.
LEI PELÉ, AINDA
Recebi várias mensagens a propósito do comentário da semana passada sobre a Lei Pelé. O pensamento brasileiro ainda é ingenuamente binário. Se você não é isso, é aquilo e ponto final. No caso, se alguém faz reparos à Lei Pelé, é acusado de ser favorável à volta ao passado, à iniqüidade da Lei do Passe. Não é o caso deste cronista, que espera, em sua vida cotidiana e naquilo que escreve, passar ao largo desse modo maniqueísta de raciocinar.
Entendo que a lei é um avanço, mas precisa de reparos que dêem maior poder de barganha aos clubes na hora de contratar, renovar contratos e negociar. Esse maior poder (tempo de contrato, idade mínima para contratar, valor da multa maior em relação ao salário, etc.) fortaleceria os clubes. Não apenas para manter atletas por mais tempo, mas para negociá-los em condições melhores. Seria uma forma de capitalizá-los para que possam substituir à altura os que se foram.
Do jeito como é, a Lei Pelé parece benéfica para muita gente. Menos para o futebol brasileiro e seu público-alvo, a torcida. Seria como um sistema educacional que produzisse escolas lucrativas para seus proprietários, excelentes para diretores e professores e péssimas para os alunos. Se alguém não deseja enxergar essa distorção do futebol brasileiro, é direito seu. Mas não se pode pedir a todo mundo que dê uma de avestruz.

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