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Peladas salvam o futebol

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h33

MANAUS – Estou no Amazonas para um festival de cinema, mas onde quer que vá, o futebol me persegue. Não é que encontro, entre os concorrentes do festival, dois filmes sobre o nosso jogo da bola? Um deles chama-se Louco por Futebol, do Halder Gomes, sobre a torcida do Fortaleza. Aliás, fomos juntos uma vez ao Castelão ver um jogo em que o time do cineasta perdeu para o Cruzeiro. Triste lembrança. Mas o filme é justa glorificação de uma torcida fanática.
O outro filme celebra a glória do futebol local. Não, não se trata de nenhum time em especial. O filme O Futebol como Deus Criou: o Peladão de Manaus fala desse que é o mais extraordinário fenômeno de futebol popular que se conhece. O engraçado é que o diretor do filme é Albert Knechtel, que, pelo sobrenome, manauara não é. É alemão mesmo e vive na França. Os gringos adoram o Peladão, e deveríamos fazer o mesmo. O torneio, disputado às vezes por mais de mil times, cada qual com sua respectiva rainha, é uma espécie de mix de torneio mata-mata e desfile de misses. As rainhas não têm função ornamental. Entram em campo e, se perdoam a impropriedade, suam a camisa. Classificadas nas eliminatórias, podem ajudar seus times caso eles tenham sido eliminados: se a rainha avança, o time ganha direito à repescagem.
Conforme me explicaram, as regras da International Board são adaptadas para as condições locais. Os times podem ter onze jogadores, como é de hábito, mas isso não é obrigatório. De acordo com o campo, ou a possibilidade dos times, podem ter menos atletas para cada lado. Não existe impedimento. Joga-se calçado ou descalço. E, fundamental, atletas profissionais são proibidos, sendo o amadorismo a base de todo o sistema. O torneio foi fundado pelo jornal A Crítica em 1972 e está na sua 35ª edição. É um sucesso absoluto. A cidade respira o Peladão, cujos times têm origem nas associações de bairros da capital e de outras cidades do Estado. Jogam médicos, feirantes, índios, classe média, indigentes. Se o Brasil ainda pode ser chamado de país do futebol é porque esse é o esporte ainda mais praticado por gente de todos os tipos e todas camadas sociais. O Amazonas é um exemplo, nesse sentido. Qual o segredo? O motorista de táxi e o secretário de Cultura do Estado me fornecem a mesma explicação: “Todo mundo joga bola por aqui.”
Já a reta final do Campeonato Brasileiro parece empolgante, ao contrário do que grasnam algumas cassandras já querendo enterrar a fórmula de pontos corridos. O Flamengo bateu o recorde de público (mais de 81 mil pagantes) e, mais do que isso, bateu o Santos. Foi um ótimo jogo e, em boa parte do tempo, o Santos conseguiu equilibrar o ímpeto do Mengo. Mas existe uma diferença: este entrou em campo para ganhar, o outro para empatar. Pode ser até simplista, mas o time com maior posse de bola, que ronda mais a área adversária, que se arrisca mais, tem melhores chances de ser recompensado. Foi o que aconteceu. O futebol é um esporte injusto, mas não o tempo todo.
E o futebol tem sido justo com o Corinthians. Se foi empurrado para esta situação por ter se envolvido com gente da pior qualidade, agora, que luta apenas dentro do campo, e sozinho, o Corinthians tem sido recompensado. Esse empate com o Goiás foi um pequeno milagre. Por enquanto, o milagre atende pelo nome de Felipe. Acho que o Corinthians não cai.

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