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Pensar o impossível

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h35

Uma vez conversava com a adorável criatura que foi João Antonio, quando o papo se desviou da literatura e acomodou-se numa paixão comum de entrevistador e entrevistado – o jogo da sinuca. João era louco pelos grandes jogadores que conhecera na noite paulistana, que ele varava indo de salão em salão nos quais se pratica a arte do taco e da bolinha branca. Desse périplo constante madrugadas adentro tirou material para sua obra-prima, o conto Malagueta, Perus e Bacanaço, que até filme virou.

Entre os jogadores, João tinha apreço por um em particular, o mitológico Carne Frita. Via nele uma espécie de Picasso, de Miles Davis do taco e do giz. Um artista, em suma. Na conversa comigo, João disse mais ou menos assim: “O que me surpreende não é que o Frita faça aquilo que faz; o que me assombra é que ele pense que é possível fazer aquilo”.

Muitas vezes meditei sobre essa frase do João e, domingo, me lembrei dela de novo ao testemunhar o inacreditável, estupendo, improvável gol de Diego Souza no Atlético Mineiro. Que topete! Que atrevimento! Achar que poderia pegar uma bola espirrada do goleiro, dar-lhe um tapa de primeira, com carinho mas quase com desfaçatez, do círculo central, e enfiá-la por cobertura no fundo do gol adversário! É preciso ter muita confiança no próprio taco, como tinha o próprio Carne Frita, personagem verídico do meu amigo João Antonio.

Penso que um gol desses, até por razões estéticas, deveria ser capaz de colocar ponto final nessa pretensa crise palmeirense. Tal excesso de confiança do seu melhor jogador pode contagiar todo o elenco e inclusive a diretoria para que os falsos problemas sejam enterrados e o time, mesmo sem o título brasileiro, mantenha a rota para 2010. Fechar o ano com um gol desses só pode ser bom prenúncio.

Mas título, claro, provavelmente é aspiração só para o ano que vem. Depois da sensacional rodada de domingo, parece muito difícil imaginar outro campeão que não seja o Flamengo. Para tirar o Hexa (ou Penta?) do Mengão precisaríamos imaginar o Grêmio, que é péssimo visitante, com a faca nos dentes no Maracanã, esfalfando-se para dar o título…ao Internacional. Fazendo a ressalva de que o futebol é o futebol e nele até o improvável deva ser considerado como possível, acreditar nessa façanha exige fé de quem crê em duende, Papai Noel e coelhinho da Páscoa ao mesmo tempo. Certo, também não se punha fé em que o Goiás fosse dificultar a vida do Flamengo e do São Paulo e, no entanto, jogou duas partidas impecáveis para calar a boca dos incréus. Mas acho que agora a situação é bem diferente.

Mesmo porque o time do Flamengo está melhor do que o do Grêmio e, embalado pela galera rubro-negra, deve faturar seu sexto (ou quinto?) título brasileiro. O Inter pode fazer a sua parte e bater o fraco Santo André, mas ser obrigado a torcer para o arquirrival é ironia amarga como chimarrão de má qualidade. Já o Palmeiras pega uma carne de pescoço indigesta, com o Botafogo desesperado em busca da salvação. A combinação de resultados que levaria o Verdão ao título é mais do que improvável. Mesmo caso do São Paulo, que precisa derrotar o rebaixado Sport e contar com milagres simultâneos para ser campeão.

Tudo resolvido, então? Sim, é claro. Mas se tivéssemos certeza absoluta nem precisaríamos ver os jogos da última rodada, não é mesmo?

(Coluna Boleiros, 1/12/09)

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