As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pintou o craque do ano: Mineiro

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h13

14/11/2006

Já andei comentando por aí que eu e meus colegas estávamos apreensivos com a
chegada do fim do ano e as inevitáveis listas dos melhores do campeonato.
Uma escolha, entre todas, parecia a mais difícil: quem teria sido o craque
do ano num futebol que exportou todos eles? Depois da última rodada, acabou
a dúvida: meu eleito se chama Mineiro, e ponto final.
Não voto nele apenas pela regularidade, eficiência e presença nos momentos
decisivos. Voto porque Mineiro também é o símbolo perfeito deste Campeonato
Brasileiro de 2006.
Mas, vamos por partes, como diria Jack. Mineiro, que é gaúcho mas prima pela
mineirice, é discreto até quando rouba uma bola. Joga um futebol
anti-espetacular, mas que rende muito para o coletivo do seu clube. E, às
vezes, e exatamente nos momentos cruciais, o mineirinho deixa de ser
discreto. Sai da sua função e faz gols. Gols decisivos. Como o de domingo,
contra o Goiás, chutando do meio da rua. Como aquele, no 1 a 0 contra o
Santos, que foi a verdadeira final do campeonato. Como aquele outro contra o
Liverpool, que deu o título mundial ao São Paulo.
E vou lembrar mais um, que já anda meio esquecido. Aconteceu no Campeonato
Paulista de 2004, quando ele ainda jogava pelo São Caetano. Primeiro jogo da
semifinal, na Vila, o São Caetano abre 2 a 0 sobre o Santos de Diego e
Robinho. Mas o Santos consegue virar e o jogo está para acabar em 3 a 2
quando Mineiro acerta um chutaço da intermediária e empata a partida. Esse
empate abriu o caminho para o São Caetano, que, no segundo jogo, goleou o
Santos por 4 a 0 no Anacleto Campanella e depois foi campeão jogando as
finais contra o Paulista de Jundiaí.
Então, na minha modesta opinião, Mineiro foi o melhor jogador deste
Campeonato Brasileiro. Agora, Mineiro é um Robinho? Um Kaká? Um Ronaldinho
Gaúcho? Um Tevez? Ou mesmo um Rafael Sóbis? Não. Para nós, segundo a nossa
cultura, a atuação de um craque de verdade tem de ser como uma queima de
fogos de artifício. O craque tem de brilhar, ser espetacular, enfeitiçar o
olhar do espectador. Tanto é que dificilmente elegemos um craque que seja da
defesa, um zagueiro, um goleiro. Não: tem de ser de preferência um atacante
ou um meia. Um homem-gol. Aquele que inventa meios mirabolantes para botar a
bola para dentro. Ou aquele que dá passes espetaculares e coloca o colega na
cara da meta. Ou ainda, um driblador, um mago que nos faça recordar (ainda
que de longe) um Pelé, um Garrincha, um Canhoteiro.
Nesse sentido, Mineiro é o anticraque. Mas até por isso não seria o jogador
ideal para representar o campeonato? Um campeonato que não tem nenhum
(repito: nenhum) desses craques feéricos que descrevi. Campeonato que
representa fielmente a realidade atual do futebol brasileiro: um futebol
médio. Nem o pior do mundo e nem muito menos o melhor. E nem sequer um dos
melhores. Médio, mediano, para não dizer medíocre. Depois de anos de modelo
exportador , chegamos finalmente ao nosso limite, ao osso: um futebol sem
nenhum fora de série em atividade.
Bem, nesse tipo de futebol vale e vale muito o conjunto, o jogo solidário.
E, no conjunto, passa a valer ainda mais aquele que produz para o time. Um
volante dedicado, que sabe apoiar na hora certa, não tem ego, e ainda marca
gols decisivos. Mineiro é o craque anticraque de um futebol que consumiu a
si mesmo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.