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Pondo os pingos nos iis

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h03

“Dizem que o jogador mudou. Mas ninguém diz que os clubes também mudaram”. Nesse período de entressafra do ano, fraco de notícias e cheia de declarações sem sal, essa foi para mim a melhor frase dita por um jogador em muito tempo.
Quem a disse foi Kleber – o “gladiador”, esclareça-se – que já passou pelo Palmeiras (para onde talvez volte) e encontra-se no Cruzeiro. Foi dita quando um repórter de rádio lhe perguntou se ainda tinha o sonho de fazer carreira na Europa. Kleber, que já atuou no futebol russo mas não na Meca européia (Itália, Inglaterra, Espanha), responde que não. Descartava a hipótese? Também não, “desde que a proposta fosse irrecusável”. Mas se ela não aparecesse, não ficaria frustrado. Estava bem por aqui, e aqui ficaria de bom grado e por muito tempo. “Desde que os clubes brasileiros também me quisessem manter no País”. E, nesse ponto, disse a frase que me tocou e que repito, tamanha me parece sua lucidez, de que tanto necessitamos. “Dizem que o jogador mudou; o que não dizem é que os clubes também mudaram”.
Quer dizer, ficamos ainda indignados, ainda que divertidos, quando um pirralho mal saído dos cueiros diz que seu sonho é jogar no Barcelona ou no Milan. Mas deixamos barato quando o cartola declara que precisa vender um ou dois jogadores do “plantel” para fechar o caixa.
No fundo, tanto o garoto quanto o dirigente de alma contábil estão falando o esmo idioma. Não se contradizem nem se opõem – fazem parte do mesmo e único sistema. E, se quisermos mudar alguma coisa na mentalidade do futebol brasileiro, é a esse sistema que devemos atacar. Não adianta maldizer jogadores “mercenários” ou cartolas “gananciosos”. Ambos, em sua alienação fundamental, estão na mesma. São peças da mesma engrenagem. E, para enxergar alguma coisa desse mecanismo, convém olhá-lo de fora.
O que exige certo senso crítico, e também algum distanciamento. Qualidades que, em nosso preconceito, não estamos acostumados a associar a jogadores de futebol. Daí a surpresa – agradável – quando um dos nossos boleiros vê mais longe que os melhores analistas do futebol e consegue botar o dedo na ferida. Com sua pequena frase, Kleber vai ao “x” da questão: todas as partes são cúmplices pelo que vem acontecendo ao futebol brasileiro – jogadores, agentes, a CBF, cartolas e também, por omissão, a imprensa especializada.
Ou somos todos cúmplices ou, no mínimo, praticamos a chamada política do avestruz, aquela que enfia a cabeça dentro de um buraco para não ver o que está acontecendo. Como se isso mudasse a realidade.
Daí nos escandalizarmos (ou nos divertirmos, dá no mesmo) com fenômenos como a profusão de veteranos em atividade no nosso futebol que, como lembrou Ugo Giorgetti, há muito tempo não traz uma verdadeira revelação jovem. Sem nos darmos conta, somos todos responsáveis por uma mentalidade que torna inútil o investimento em categorias de base e prolonga artificialmente a carreira dos jogadores. Estamos todos nessa – como bem viu Kleber.
Falando nisso, não sei como ninguém teve a ideia de sondar o ponta Gigghia quando ele esteve no Brasil para deixar a marca dos seus pés na calçada da fama do Maracanã. Do jeito que as coisas andam, o uruguaio seria capaz ainda de provocar um novo Maracanazo.

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