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Por que dançam os técnicos?

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h05

Muricy já se foi, depois de fazer do São Paulo tricampeão brasileiro. É pouca coisa? Não era quando o terceiro título foi comemorado. Passou a ser. Falou-se em “desgaste natural” porque Muricy estava no São Paulo havia três anos e esse é considerado um tempo enorme. Mas sir Alex Ferguson não treina o Manchester United há 22 anos? “A Inglaterra é uma coisa, o Brasil é outra”, já ouço dizer algum brasileiro vítima do complexo de vira-lata. Lá as coisas são estáveis, é país de tradição; no Brasil tudo que é sólido se desmancha no ar. Sim, mas sir Luis Alonso Perez, o Lula, não permaneceu na Vila Belmiro por 12 anos? Por que, então, o tempo de Muricy deveria ser considerado imenso, despropositado, um exagero, como se sua gestão, na verdade, já devesse ter sido encerrada há mais tempo?
Suspeito que seja um sintoma do imediatismo nosso de cada dia. Como vocês sabem muito bem, vivemos numa época em que tudo é para ontem. O serviço que é encomendado e deve ser feito sem demora, a compra que deve chegar imediatamente, o e-mail que precisa ser respondido no ato, o recado no celular que tem de ser retornado em cima da pinta. Por que no futebol seria diferente? Pelo contrário. Como o futebol é uma espécie de laboratório da experiência social, nele tudo se expressa com mais nitidez do que na vida corrente. Ele é uma espécie de retrato ampliado do que acontece no resto da sociedade, em seu todo. Por exemplo, se as relações econômicas e culturais tendem a se globalizar, o futebol se globaliza antes. E assim por diante. O futebol seria um sintoma profético do mundo.
Daí que a pressa, o imediatismo, que contamina a tudo e a todos, dá suas caras com maior nitidez no ambiente da bola. Há outros exemplos de técnicos que parecem balançar neste primeiro semestre. Um deles é Vanderlei Luxemburgo, que era considerado intocável nos clubes por onde passou, com exceção do Real Madrid, que o mandou embora. Mas aqui no Brasil era Luxa quem abandonava os clubes e nunca o contrário. Pois agora está sendo contestado no Palmeiras, por parte da cartolagem e também da torcida. Não havia em andamento um “planejamento a longo prazo”, como os figurões tecnocratas gostam de dizer? E daí, acabou o planejamento só por que o time não conseguiu avançar na Libertadores? Será que tudo é tão frágil assim?
Outro ameaçado, e com muito menos tempo de clube que Muricy e Luxemburgo, é Vágner Mancini, no Santos. Domingo, na derrota diante do Atlético Mineiro, a torcida já se encarregou de puxar o coro de “burro, burro, burro”, que costuma anunciar a queda de um treinador. Certo, as alterações do técnico, sobretudo a saída de Neymar, não pareceram coisa de gente inteligente mesmo. Mas até a pouco, pelo menos até a derrota para o Botafogo, Mancini era visto como competente, alguém que havia dado um padrão de jogo ao time, etc. Virou burro de repente? A diretoria do Santos já disse que Mancini está “prestigiado”. Mas como ficará se acontecer uma derrota no clássico contra o Palmeiras, resultado perfeitamente normal e possível? Um placar desfavorável pode encerrar de maneira prematura uma gestão que poderia ser das mais interessantes.
Enfim, técnicos deveriam ser julgados por sua competência ou por resultados isolados? Se quem o empregou chega à conclusão de que o profissional não serve para o cargo, por que deve esperar por uma derrota do time para então demiti-lo. E se entende que contratou bem, porque desfazer-se do profissional quando os resultados demoram a chegar?

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