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Precisamos de tanta emoção?

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h18

Amigos, no domingo, como todo mundo, eu estava grudado na Fórmula 1, na decisão entre Massa e Hamilton. Mas larguei a corrida pela metade pois tinha de ir ao futebol. No trajeto até o estádio, fui ouvindo pelo rádio o que acontecia em Interlagos. Cheguei à Vila uns 20, 25 minutos antes de Santos x Palmeiras começar. Vi uma pequena multidão, na rua, em frente a uma TV. Eram torcedores assistindo à corrida. Faltavam umas dez voltas para terminar. Ninguém arredava pé do lugar e a euforia chegou ao máximo naquele espaço de tempo em que Massa foi campeão – e acabou não sendo. Não via tamanha vibração popular com a F-1 desde o tempo de Ayrton Senna. Era povão mesmo, comemorando a enganosa vitória de Massa como se fosse Copa do Mundo. Depois, veio a realidade, e a frustração.

Com o fim do sonho no automobilismo, a galera entrou no estádio, já com o hino em execução. Primeiro minuto de jogo: Palmeiras, 1 a 0. O Santos empata no primeiro minuto do segundo tempo, e, como dizia um locutor da antiga, “na última volta do ponteiro”, o Palmeiras desempata. Assim como existe uma Valsa do Minuto, este será lembrado como o “jogo dos minutos”. Haja coração. Na saída do estádio, descendo as escadas, um desconhecido comentou, com as feições desfeitas, parecendo o espectro do pai de Hamlet: “Primeiro o Massa, depois esse jogo. Estou esgotado!” Entendo o sentimento do torcedor. Eu mesmo voltei para casa em condição precária. Cheguei até a pensar: será que vale a pena a gente viver tanta emoção por causa de um jogo, de uma corrida de carros? Será que isso faz bem ou mal à gente?

Então me lembrei de José Lins do Rego, o grande escritor paraibano, autor de clássicos como Menino de Engenho e Fogo Morto. Zé Lins foi torcedor fanático do Flamengo e chegou a dirigente do clube. Num tempo em que intelectual tinha vergonha de dizer que gostava de futebol, às vezes Zé Lins era obrigado a enfrentar perguntas de quem não entendia o que ele ia fazer num estádio. “Vou me divertir”, dizia a uns, para encerrar a conversa. “Vou sofrer”, dizia aos “correligionários” rubro-negros. “Vou viver”, dizia apenas quanto queria ser completamente verdadeiro.

Modestamente, acho que Zé Lins estava certo. É isso que buscamos nos estádios, nos esportes de uma maneira mais geral: vida. Emoção. Aquele sentimento que nos arranca por alguns momentos da rotina racional, chata e opaca do dia-a-dia, e dá um sentido poético à existência. Vale muito a pena expor-se a tantas emoções, mesmo com risco de sofrimento. Alguma coisa no nosso mecanismo mental exige essa ginástica da alma. Tanto assim que, exausto, dormi à noite como recém-nascido. A emoção purifica.

DESFECHO

Com essa rodada, é claro que tudo continua indefinido, mas algumas tendências estão aí, para quem quiser ver. Grêmio, Cruzeiro e Flamengo perdem fôlego, embora ainda não tenham se “descolado” de São Paulo e Palmeiras. A fatura não está liquidada. Mas uns sobem e outros descem, exatamente naquela hora que separa os homens dos meninos. O caminho do São Paulo parece mais suave: Portuguesa, Figueirense, Vasco, Fluminense e Goiás. Já o do Palmeiras – Grêmio, Flamengo, Ipatinga, Vitória e Botafogo – promete mais asperezas. Qual deles vai chegar em primeiro no final ? Qual fica fora da Libertadores? Não me interessa. Só quero é o máximo de emoção.

(Coluna Boleiros, 4/11/08)

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