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Professor nota 7, craque nota 10

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h14

O futebol mudou muito nos últimos anos. Mas há coisas que parecem eternas e
existem desde que a bola começou a rolar e alguém ficou fora do campo para
orientar os boleiros. Desde então, de vez em quando acontece de um time
insatisfeito fazer greve branca e derrubar o técnico. Aconteceu ano passado
quando o Santos se entregou diante do Corinthians e perdeu de 7 a 1 para
livrar-se de Nelsinho Baptista. Repetiu-se agora na derrota de 6 a 1 do
Palmeiras para o Figueirense, vexame sob medida para demitir o técnico Leão,
que, sutil como um elefante obeso, havia qualificado a sua própria equipe de
“nota 5”.
Estava vindo de carro para o jornal quando ouvi a entrevista do já
ex-técnico na rádio Jovem Pan. Leão culpava a imprensa dizendo que haviam
distorcido sua frase. Segundo ele, dera nota 5 ao time, sim, mas num
“universo” de 1 a 7. Uai, como diz o mineiro, eu nunca tinha ouvido falar
nessa escala, na vida. Parece desculpa esfarrapada, de quem falou besteira
mas não quer assumir. Invenções à parte, fica claro que Leão havia perdido o
comando e não tinha mais como motivar o elenco. Resultado: o time nota 5
mandou embora um treinador que se acha nota 10. Ou 7, segundo o seu original
sistema de avaliação.
O fato é que um time de futebol é uma entidade sensível, que não pode ser
tratada aos tapas e pontapés, senão desanda. O elenco do Palmeiras não me
parece destoar da média do primeiro escalão no atual futebol brasileiro.
Perde para Corinthians e São Paulo, e só. Assim, é inaceitável que tenha
caído tanto de produção, a ponto de ser humilhado pelo Figueirense, que, com
todo o respeito, não é exatamente um bicho-papão. Agora, com Leão já fora da
jogada, o Palmeiras pode crescer e rapidamente.
Desse modo, o jogo de amanhã entre Palmeiras e São Paulo, pela Libertadores,
ganha um ingrediente a mais. Posso estar enganado, mas acho que o São Paulo
estará cometendo grave erro se pensar que vai ter uma galinha morta pela
frente. Pelo contrário: vai se haver com uma fera ferida. Uma vez cumprida a
missão de derrubar o “professor”, os atletas podem voltar a jogar bola e
talvez tentem mostrar que honram a camisa que vestem. Resta ver qual será a
reação da torcida. Perdoará, em caso de vitória? Ou aprofundará a caça às
bruxas se vier novo fracasso? Em qualquer caso, o Parque Antártica vai
ferver. Muita calma, porque é jogo de risco.
COMPARAÇÕES
Mas amanhã também é dia de assistir a Ronaldinho Gaúcho na partida de volta
do Barcelona com o Milan. E uso o verbo “assistir” porque se trata mesmo de
um espetáculo. Já se escreveu muito a respeito do primeiro jogo e do lance
que o decidiu, aquele maravilhoso passe de Ronaldinho a Giuly, de modo que
não voltarei ao assunto. Ronaldinho está jogando o fino da bola e me junto
alegremente ao seu fã clube mundial. Para quem gosta do futebol-arte é um
presente dos céus ver em ação jogador desse nível, em especial quando atua
em conjunto tão harmonioso e alegre como o Barcelona atual.
Dito isso, tudo o que Ronaldinho não precisava neste momento de glória era
ser comparado a Pelé. Até entendo esse tipo de iniciativa vindo da emissora
que transmite os jogos em rede aberta e precisa valorizar o seu produto.
Entendo também que o pessoal mais jovem ache Ronaldinho tão bom ou até
melhor do que Pelé porque cada geração precisa de um ídolo que lhe seja
contemporâneo. A mesma compreensão estendo a cronistas e críticos que
começaram a acompanhar o futebol dos anos 80 para cá. Agora, para quem viu
Pelé jogar – não uma nem dez vezes, não por melhores momentos, gols mais
bonitos ou DVD, mas seguiu de perto toda a sua carreira – essa questão
simplesmente não se coloca. Vamos curtir o Ronaldinho como ele é, com seu
imenso talento, e deixá-lo em paz, livre de comparações sem sentido.

25/4/2006

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